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70 anos da TV no Brasil (crônicas e memórias) – III

Foto: Divulgação/Companhia das Letras

(3) – Jô Soares e os entrevistadores

Não há como discutir a  importância de Jô Soares para a consolidação do gênero talk-show na TV entre nós. Depois de 11 anos no SBT e 17 na Globo, o artista e sua trupe se consagraram como o mais longevo programa de entrevista da TV brasileira. Que, diga-se de passagem, tem ampla tradição neste gênero de atração.

Confiram comigo:

O jornalista Wilson Nogueira (irmão do também jornalista Armando Nogueira) foi um dos pioneiros lá nos idos de 50 na então TV Rio. É provável também que tenha sido um dos primeiros a viver uma situação de risco.

Ele, em um furo de reportagem, levou ao programa – ao vivo, pois não havia tape – o renomado Marechal Rondon, recém-chegado de uma de suas muitas incursões às matas da Amazônia.

Lá pelas tantas da conversa, Nogueira achou por bem oferecer uma taça de Guaraná Champagne ao entrevistado, antes de chamar o necessário intervalo comercial.

Homem sério e de firmes convicções, Rondon recusou firmemente a oferta – e disse mais:

— O quê? Eu só tomo guaraná na Amazônia, colhido no pé e raspado em língua de pirarucu. O que vocês estão me oferecendo é água com açúcar. Não presta, não…

Detalhe: a Antártica era patrocinadora do programa.

E, depois dessa, achou melhor sair do negócio.

O próprio Jô Soares, no início da carreira em São Paulo, trabalhou na produção do Silveira Sampaio Show, que era levado ao ar semanalmente pela TV Paulista e, depois, pela TV Record, no início dos anos 60.

Sampaio era dramaturgo, escritor e jornalista.

Com o súbito falecimento de Sampaio, a Record passou o comando do programa ao apresentador Blota Júnior, de larga em experiência no rádio e na TV. Manteve-se o formato e a periodicidade semanal, só que o programa foi para os fins de noite da sexta-feira.

Aliás, à época, uma das entrevistas de maior repercussão foi com então famoso humorista Jô Soares. Além de falar de sua promissora carreira, Jô deu mostra de outro de seus inúmeros talentos: o de dançarino.

Blota convidou três ou quatro dançarinas da noite paulistana – e Jô as conduziu, com maestria e leveza, por diversos ritmos, mesmo com seus cento e tantos quilos.

O processo de redemocratização do País possibilitou grande incentivo aos programas de debates e entrevistas; primeiro, no início e depois no transcorrer dos anos 80. São dessa época, por exemplo, títulos consagrados como Roda Viva, Canal Livre, Crítica & Auto Crítica, entre outros.

Vale registrar, como ponto favorável à realização desse tipo de programa o almejado fim da censura política em 1979.

Na esteira desse momento, digamos, de libertação, o formato talk-show foi ganhando adeptos como Marília Gabriela, Ferreira Netto e Alberto Helena Júnior.

Marília Gabriela misturou alguns gêneros televisivos em seu Maria Gabi Gabriela, com trilha de Rita Lee, ainda naquela década. Juntava no mesmo estúdio atrações diversas e as entrevistava uma a uma, entremeando números musicais e outras atrações.

Algum tempo depois, já nos anos 90, experimentou dividir a bancada com o Macaco Simão e o jornalista Augusto Nunes em De Frente Com Gabi, no SBT. É dessa época uma bela entrevista com o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony que lançava um novo livro (“Quase Memória”), após mais de 20 anos longe da literatura.

“Eu tinha coisa mais agradáveis a fazer do que escrever um romance”, respondeu Cony aos embasbacados entrevistadores.

Essa experiência não teve vida longa. Uma pena!

Coisas do SBT…

Marília continuou, ainda por vários anos, com seus programas de entrevistas, tanto na GNT como na TV aberta (voltou ao SBT). Com uma levada mais para o entretenimento e ao mundo dos famosos.

Outra experiência bem interessante no gênero foi perpetrada pelo jornalista Alberto Helena Jr. na TV Record, também pelos idos de 80.

Chamava-se Show da Meia Noite e, como insinuava o sugestivo nome, tentava atrair uma plateia de notívagos, interessados em ir além das notícias do telejornal ou das reprises de filmes antigos Helena viveu os ares da Record em seu auge, anos 60, no tempo dos musicais. Depois desenvolveu sólida carreira como jornalista esportivo, como colunista do Jornal da Tarde.

À época, tentou dar uma guinada na carreira – e investiu firmemente na TV.

Show da Meia Noite, eu diria, foi uma oportuna iniciativa. No entanto, não prosperou em termos de audiência. Também teve vida curta.

Não é exagero dizer que o Programa Ferreira Neto consolidou o fim de noite como o horário ideal para o bate-papo eletrônico. Reproduzia basicamente o cenário de mesa para o entrevistador e sofá para o entrevistado que Jô consagrou anos depois.

Com ampla experiência como jornalista e passagens por diversos jornais e emissoras de rádio e de TV, Ferreira Neto tinha sólida carreira como colunista de TV, com auge no jornal Folha da Tarde.

Na TV, seu programa aproveitou os ares da redemocratização para dar ênfase ao debate político, tão em voga à época; mas não se limitou à área. Entrevistou também personalidades de diversos segmentos, especialmente do mundo de entretenimento.

Tinha uma boa média de audiência para o horário, mas o ponto forte era o caráter de formador de opinião. Houve momentos que ser entrevistado por Ferreira Neto era sinal de prestígio, de ter o que dizer.

O jornalista levou tão a sério essa fama que cometeu um grave deslize.

Contrariou as orientações do Tribunal Regional Eleitoral, e entrevistou o então candidato a presidente, Fernando Collor de Melo, na quarta-feira anterior ao pleito do segundo turno, em dezembro de 1989.

Tal iniciativa – sem dar o direito de reciprocidade ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva – foi entendida como um claro apoio a Collor.

Ele não foi o único, é certo.

Mas, a bem da verdade, começou aí a derrocada do programa. Ferreira Neto ficou estigmatizado – e gradativamente foi perdendo espaço na TV. O programa, que já havia passado por diversos canais, foi perdendo público e terminou seus dias – depois contínuas interrupções – na grade vespertina de sábado, na TV Mulher.

Ferreira Neto tentou voos políticos, lançando-se como candidato ao Senado. Mas, não obteve êxito.

Vale registrar – até para fechar redondo esse passeio pelos descaminhos da História da TV – que o Jô Soares – Onze Meia ganhou força na cobertura do dia-a-dia do impeachment de Fernando Collor.

Jô lançou mão de sua verve como jornalista – foi colunista do célebre Última Hora, de Samuel Wainner, para acompanhar passo a passo do debate político, com célebres entrevistas.

É isso!

Um beijo do (quase) gordo.

Se continuar o isolamento social, já-já bato nos três dígitos…

* A partir de texto publicado originalmente em 13/03/2012

 

 

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