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Ao olhar da amiga…

O Nasci era o nosso guru.

Naquela redação de piso assoalhado e grandes janelões para a rua Bom Pastor, o homem dissertava sobre tudo e todos.

Pendurado em um cachimbo holandês – que alguém lhe trouxera em idos tempos –a baforar um fumo achocolatado que cobria de fumaça todo o espaço onde trabalhávamos, ele era fonte segura para nossas dúvidas e inquietações; nós, os jovens repórteres que o rodeavam.

Lembro o Nasci e suas lições de vida quase sempre; principalmente quando uma novela se encerra.

As discussões que travava com o colunista de TV, o também saudoso Ismael Fernandes, por vezes eram melhores do que as cenas do último capítulo. Nunca chegavam a um acordo, e a gente – que formava a dileta plateia – ganhou o mundo sem saber se ambos discordavam mesmo ou se faziam toda aquela polêmica apenas para movimentar o ambiente que, diga-se, por si só, já era tenso.

Fico a imaginar o quê conversariam hoje quando a Griselda do Brasil se despede do horário nobre das novelas globais, com pompas e circunstâncias.

Não é difícil identificar o possível lado que cada um defenderia.

O Ismael estaria aplaudindo de pé – e com entusiasmo – o desempenho de Lília Cabral e tecendo loas e proas ao País multifacetado que Agnaldo Silva projetou ao longo desses meses de folhetim.

Nasci, por sua vez, identificaria a decadência do gênero, com personagens mal-alinhavados e trôpegos.

Poderia ser o inverso também.

O que importava mesmo era o debate, o fusuê, a força da argumentação.

Outro assunto certamente viria à tona, neste dia, era se Dona Griselda é mesmo a fiel representante da nova mulher brasileira. Na curva dos 40 para os 50, batalhadora, honesta, sem medo de cara feia, que aposta na força do trabalho e no futuro do País. Que acredita no amor e no sonho, como a reinventar a própria vida?

Desconfio que para tentar esclarecer o enigma, Nasci, que era publicitário de origem, citaria os versos do poema “Fidelidade”, do poeta e também publicitário Mauro Salles:

“Somos fiéis
Aos amores impossíveis
Às vozes de ontem
Às promessas de eternidade
À mão do companheiro
E ao olhar da amiga”

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