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Dor e Glória, de Almodóvar

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Filmes do Almodóvar sempre me arrebentam.

Seja qual for o enredo.

Fico bastante tocado por suas sensíveis crônicas cinematográficas e, aqui e ali, confesso, me vejo como este ou aquele personagem.

Por isso, talvez, faça tanta questão de vê-las no cinema onde, a bem da verdade, nos sentimos, nós, os espectadores, como parte da história.

Não sei se acontece com você, amável leitor, amada leitora; mas é a impressão que tenho no escurinho do cinema. Lúdica e prazerosa.

Comentei a minha admiração pelo cineasta a uma estudante espanhola que fazia intercâmbio na universidade em que eu trabalhava.

Como resposta, Júlia deu um sorriso maroto, de quem sabia das coisas.

Tomou para si as rédeas da conversa.

Disse que os filmes de Pedro Almodóvar são alegorias, vividas, observadas e comentadas, a partir da própria experiência existencial do autor.

Falou algo como:

“Almodóvar nunca pôde estudar cinema. Era de uma família bastante humilde. Por isso, sua obra nada mais é do que um relato pessoal entre o real e o imaginário.”

E acrescentou, toda senhora de si:

“Muitas vezes, os personagens falam pelo autor.”

E perguntou:

“Te gusta?”

Antes que eu respondesse, ela citou uma cena do filme Fale Com Ela em que Caetano Veloso aparece cantando em espanhol numa roda de amigos.

No grupo, está o protagonista que, transtornado de emoção, confessa o quanto o brasileiro sempre o deixa chapado com suas interpretações.

Para Júlia, é exatamente esta sensação que Almodóvar tem ao ouvir Caetano.

“Ele é apaixonado pela obra de Caetano seja em que idioma for”.

Minha interlocutora de então voltou para Burgos onde deveria terminar o curso de fotojornalismo.

Nunca mais soube dela.

Também não dei lá grande atenção ao comentário.

Achei interessante, mas esqueci por completo.

Só ontem fui recordar nossa conversa ao assistir Dor e Glória, o mais recente trabalho de Almodóvar.

Saí, pra variar, comovido, pra lá de chapado, do cinema.

Ficou claro que é um lindo filme autobiográfico.

Dou-lhes uma palhinha:

O protagonista é Salvador Mallo (Antônio Banderas), cineasta próximo dos 70 anos que já viveu momentos gloriosos.

Nesta fase da vida, ele convive com as dores naturais da idade, as lembranças da infância pobre, a inefável solidão e o fantasma da finitude.

Uma narrativa tão poética quanto ternamente real.

Que o próprio cineasta faz questão de reconhecer como o seu “projeto mais pessoal” no cinema.

Banderas, como alter-ego de Almodóvar, tem uma atuação primorosa.

De quebra, há a participação sempre especial de Penélope Cruz.

Se me vi como Salvador Molla, no filme?

Quem sou eu, primo, para me achar um Banderas/Almodóvar? Quem sou eu?

Vá lá que há algo meu, ali, quando ele reclama das dores nas costas, nos ombros e nos joelhos. Ou por ocasião da lida diária de tomar um punhado de remédios. Olaiá…

Tem também aquela pitadinha de nostalgia deste ou daquele sonho que ficou pelo caminho.

Mas, quem não os tem?

Apesar de tudo – e contudo – faço 69 anos em dezembro.

E, como o personagem/autor, detesto mocassins.

 

Foto: Banderas, Penélope Cruz e Almodóvar em Cannes/Divulgação
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