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Escova, o copydesk.

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Foto: Arquivo Pessoal

Perguntam-me sobre o Escova, amigo e personagem de dezenas de crônicas ao longo dos anos.

Era figurinha fácil por aqui. Seja por ser um dos raros remanescentes da primeira leva de jornalistas da velha redação de piso assoalhado, seja por ser amigaço de mil e uma jornadas, seja porque, no rolar das pedras, se autointitulou, por conta e risco, ombudsman do nosso trabalho neste Site/Blog.

Um notável repórter, bom papo que, naqueles idos, ostentava orgulhoso o slogan de Dom Juan das Quebradas do Sacomã. Para a inveja de alguns e a curiosidade de outros tantos.

O hoje vovô Escova se bandeou para os confins da França em meados de 2016/17 quando se configurou o impeachment da presidente Dilma Rousseff a partir da trairagem explícita do impostor Michel Temer.

– Essa Ponte Para o Futuro, meus caros, vai é nos levar de volta ao passado mais sombrio. Quem viver verá. Não vou ficar pra ver…

Sabíamos muita coisa do amigo Escova, menos que tivesse o dom de prever o futuro. Ou ainda que se mostrasse um avô tão dedicado para as duas netinhas. Que, na realidade, creio, foram o fator determinante para que o Sr. e Sra. Escova deixassem as raízes da bucólica Vila Independência e ir ao encontro da filha (que casou com um francês com bigodes iguais ao do Asterix) e das lindas netinhas.

Difícil achar um causo do Escova que eu já não tenha contado por aqui.

Vou tentar.

Eu era o editor. Nos idos de 82. Julho de 82.

Pedi a um jovem repórter (ainda em fase de experiência) que fizesse uma suite da implacável derrota da seleção de Telê para a Itália na Copa da Espanha.

Nossa gente estava destruída com a inesperada desclassificação do escrete.

Queria levantar o ânimo da rapaziada.

– Vai lá, Marcelo. Faz um ‘Fala Povo’, entrevista as pessoas, dá um destaque para os pontos positivos da seleção, o belo futebol jogado e cousa e lousa e mariposa.

Marcelo saiu acompanhado pelo repórter-fotográfico Cláudio Michelli. Voltou horas depois, sentou-se à frente da velha e esverdeada Olivetti e caprichou durante hora e tanto na escrevinhação. Concentradíssimo.

Ao fim da tarde, o jovem me entregou meia dúzia de laudas.

Atarefado com o fechamento das páginas, passei a reportagem para o Escova dar a tradicional  copydescada.

– Coisa rápida, que estou atrasado. Tenho horário pra mandar as páginas pra oficina.

Trinta mínutos depois, Escova retorna com o texto pronto. Me entrega e sai apressado; seguramente para alguma trampolinagem amorosa que ele não era de deixar pra lá.

Achei estranho. Pedi que fosse breve.

Enfim…

No dia seguinte, edição na rua, entro na redação e vejo o Marcelo, lívido, a discutir com o Escova com o jornal na mão aberto na página de Esportes.

Resolvi intervir. Pedi calma ao jovem, o mais indignado.

– O que está acontecendo, perguntei.

– Nada de importante, respondeu o Escova na maior tranquilidade.

E continuou:

– O Marcelino aqui está triste porque dei uma leve penteada no texto dele. Ficou bom, não ficou?

Ficou ótimo, falei. Qual a bronca, então?

Aí foi a vez do Cláudio jogar gasolina no celeiro em chamas:

– A bronca, Rudi, é que, de todo o texto do nosso amigo Marcelino, o Escova criteriosamente só usou, na verdade, duas palavras: seleção e brasileira.

Falou e caiu na risada acompanhado de todos na redação. Inclusive o próprio Marcelo.

Éramos assim.

A gente trabalhava muito.

Ganhava pouco, mas em dia.

Entretanto, havia a compensação.

Éramos todos amigos e nos divertíamos com qualquer bobagem.

 

 

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