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Ney Matogrosso em São Paulo. Da revista ao recital

Até domingo, Ney Matogrosso permanece no Teatro Pixinguinha, sempre às 21 horas, com o show Feitiço que alcançou grande êxito em sua temporada carioca e na primeira semana em São Paulo. Com base no repertório do elepê homônimo, lançado em meados de 78, o espetáculo divide-se em duas partes: uma dedicada ao teatro de revista e outra, um miniconcerto.

“Algo mais contido. De repente, passei a achar que minha voz também é importante” como explicou o intérprete ao repórter Rodolfo C. Martino, de Gazeta do Ipiranga.

Durante a entrevista, além de falar sobre o show, Ney faz um balanço de seus quatro anos de carreira solo. Revela que, em julho, começa a gravar um disco só com autores do passado como Carlos Gomes, Villa-Lobos, Ari Barroso, Lupicínio Rodrigues e Vicente Celestino, entre outros. (*)


Desde abril/maio de 75, você passou a desenvolver uma carreira solo das mais bem-sucedidas no showbiz local. Quatro anos de estrada, agora, dá pra dizer que valeu a pena, Ney?

– Só valeu. Para mim, foi muito melhor. De repente, fiquei com uma perspectiva mais ampla de poder dirigir a minha vida. Antes, não. Fazia parte de um grupo e, como tal, ficava restrito às várias cabeças, várias ideias. Agora, não. Sou eu quem dirige e governa o próprio destino.

– E qual a situação hoje do intérprete Ney Matogrosso? Como você se situa dentro da MPB?

– Costumo dizer que funciono como um elo entre as várias tendências. Não sou compositor, e vejo isso como uma vantagem. Quando se é compositor, deve-se manter uma linha muito definida, um pensamento muito definido e… linear. Geralmente é assim, né? Como não sou compositor, tenho mais liberdade para pegar várias ideias, várias tendências musicais e funciono como o tal elo. Canto música de todo mundo desde que eu goste e seja de acordo com o que eu pense.

– Você se considera uma consequência do tropicalismo ou, quem sabe até, uma continuidade daquele movimento?

– Não me considero uma continuidade. Mas, reconheço que foi o Tropicalismo que permitiu que surgisse depois. Se não houvesse esse movimento, eu não seria absorvido pelo povo como fui. Porque em um dado momento eu fui absorvido mesmo. No começo, houve uma certa dificuldade. Mas, agora não…

– A propósito, o que você achou da recente volta dos Secos & Molhados?

– Sempre esperei por uma volta do grupo. Mas, confesso, esperava algo completamente diferente. Sempre achei que nesse novo momento o grupo não deveria lembrar o antigo. Aí, creio, que foi o furo. Ano passado, quando me apresentava no Nordeste, o pessoal chegou a pedir para que eu cantasse “Que Fim Levaram Todas As Flores”. Quer dizer, indiretamente, estavam me promovendo, me lembrando o tempo todo.

– Em sete anos, muita coisa muda, não?

– Claro, gente. Em sete anos, muita água rola, as cabeças mudam, o comportamento mudou, tudo mudou. Uma coisa que deu certo sete anos atrás já envelheceu. Não traz mais nenhuma novidade. Eu não sou mais uma novidade. Por mais ousado que seja, por mais que as pessoas ainda se choquem comigo, eu não sou mais uma novidade. Eles vão me ver sabendo que podem até se chocar. Então, já vão para o show preparados.

– Ney, por favor, faça aí um balanço dos seus discos individuais…

– O primeiro trabalho, Homem de Neandertal, eu gosto muito. Acho muito bonito. Gosto muito. É verdade que fui muito radical porque andava tenso. Era a primeira coisa que fazia individualmente, então pintou a pergunta a ser respondida: será que fico ou não? Nessa, fiz um disco radical, tenso; embora, não seja radical em nada. Bandido, o segundo elepê, já foi mais descontraído. Tinha a certeza absoluta do que fazia. Não precisava confirmar nada. Era apenas mais um trabalho. Então, fiquei mais à vontade. A bem da verdade, sempre coloquei os shows como mais importante que os discos. No entanto, em Feitiço, o disco do ano passado, eu já consegui dar quase a mesma importância que dou aos shows ao vivo. Sinto que rendo muito mais ao vivo. Não me iludo. Acho que no estúdio de gravação nunca vou ser aquele que sou no palco, ao vivo. Ou melhor, nunca vou conseguir passar as emoções que passo em um show. O registro em disco é frio, é uma máquina à sua frente. Você não pode nem se mexer. Tem que ficar a um palmo do microfone. Saiu dali já não dá mais certo. No palco, não. Você se permite. Permite-se até a errar, pois tem a emoção que envolve tudo aquilo.

– Você pulou Pecado, seu terceiro álbum.

– (Ney sorri, hesita e, por fim, responde.) É que Pecado eu nem conto. Acho um disco péssimo. Gosto do repertório, da capa. Mas, o resultado final do disco é… muito ruim. O som é ruim. Mal mixado. Péssimo. Um pavor.

– O que representou sua mudança para a Warner. Falam até que, a partir de então, surgiu um novo cantor a explorar agudos e graves com a mesma precisão…

– Calhou de, no momento, eu procurar essa coisa na minha voz e mudar de gravadora e fazer um disco com boa produção, bem acabado, com uma sonoridade nítida, clara… Como cantor, pude me buscar mais, usar os recursos da minha voz que são grandes e eu utilizava só uma parte. Usava só a parte aguda da minha voz quando tenho a parte média e a parte grave que nunca foram usadas. Nesse disco, eu pude usar. E pretendo continuar usando. Já que tenho por que não usar?

– Você considera Feitiço seu melhor disco até aqui?

– Acho que nesse trabalho está tudo muito bem equilibrado. Pode não ser o que eu mais goste. No entanto, em termos técnicos, é o melhor.

O que ocorreu de fato sobre a liberação da capa de Feitiço pela censura?

– Uma bobagem. Chegaram a recolher alguns discos porque apareço nu (na verdade, seminu) na capa interna do álbum. Mas, em seguida, liberaram com lacre. Quer dizer, o disco não pode ser exposto aberto em locais públicos, vitrines, essas coisas.

– E o seu show atual, vamos falar sobre ele?

– Eu o dividi em duas partes. Uma delas é bem teatro de revista e a outra quis que fosse, assim, um concerto ou um miniconcerto. Algo mais contido que é para onde eu me encaminho. Acho que é essa a nova direção do meu trabalho.

– Uma mudança significativa, não?

– Olha, eu estou meio cansado… De repente, penso que mostrar a minha voz também é importante. Quero que, artisticamente, já no próximo trabalho a minha voz seja a coisa mais importante. O corpo será apenas uma coisa complementar. Por enquanto, estou metade/metade: corpo e voz.

– Você tem um estilo bastante diferente. Já surgiu com essa marca no Secos & Molhados…

– Vim do teatro. Por coincidência todas as peças em que trabalhei eram musicais. Eu cantava e dançava. Então, quando virei cantor, e foi uma coisa assim mais ou menos ao acaso, eu me baseei nessa experiência anterior. Depois, tem outro aspecto: sempre que assistia a um show, senti a necessidade de ver alguma coisa – e não só ouvir. Algo mais visual que completasse o que ouvia. Mas, na verdade, é algo bem pessoal, que não sei explicar. Na base da intuição mesmo, sabe?

– Como está o seu esquema de trabalho até o final deste ano?

– O show em São Paulo termina neste fim de semana. Aí, vou dar uma parada. Em, julho, percorro todo o interior de São Paulo Paro em agosto, setembro e outubro para gravar um novo disco. No final de outubro, começo o circuito de shows no Nordeste que vai até 2 de dezembro.

– No plano internacional, tem algo?

– Existem aí algumas propostas tanto para a América do Sul quanto para a Europa. Particularmente, gostaria de fazer América do Sul. Acho que para o meu trabalho seria mais útil, mais importante. Mas, não há nada confirmado ainda.

– E como vai ser o novo disco?

– Pedi para o pessoal da Warner ir selecionando o repertório de alguns compositores. Na verdade, gosto eu mesmo de escolher as músicas que canto. Mas, agora, estou sem tempo para isso. Então, pedi algumas músicas de determinados compositores que quero incluir nesse trabalho. Vou cantar alguma coisa de “O Guarani” de Carlos Gomes. Penso nas serestas de Villa-Lobos, inclusive tenho algumas inéditas. Mais Ari Barroso, Lupicínio Rodrigues e Vicente Celestino. Essa é a base. Mas é possível que se abra para outros nomes.

– E do pessoal mais novo? Nada?

– Neste disco, especificamente, quero trabalhar em cima deste lado da música popular. É bem provável que nos shows futuros eu acrescente uma ou outra coisa mais moderna ao repertório. Mas, a ideia é que no disco fiquemos por aí.

– Ney, sua carreira se desenvolveu paralela à chamada geração de briga. Um grupo de cantores/compositores que muitas queixas contra a censura, contra a repressão. De alguma forma, a censura interferiu em seu trabalho?

– Sempre fiz meu trabalho indiferente da censura. Se ela existe que vá cumprir o seu papel. Não canto pensando nela. Faço meu trabalho do jeito que acho que deve ser feito. Agora, se eles da censura vêm e me cortam… Aí é um problema deles.

– Na televisão, parece que houve uma certa insistência em proibir suas aparições…

– Foi o maior grilo. Não podia aparecer de jeito nenhum na TV. Tudo era grilo. Quando a gente surgiu aqui em São Paulo não podia nem sequer aparecer de olho pintado. A censura não deixava porque pintar o olho era coisa de mulher. Meu cabelo preso também não podia. Era coisa de mulher prender o cabelo. Nada podia. Não dei ouvidos. Nada afetou minhas apresentações. Uai… Não quer me mostrar inteiro, não mostra. Não quer mostrar meu quadril remexendo, não mostra. Agora, eu vou continuar me mexendo. Eles que ficassem mostrando minha cara o tempo inteiro, minha boca, meus olhos… Agora, vou continuar cantando como eu sei. Problemas deles. Simples assim.

– Esses impasses geraram alguns problemas com o veículo televisão?

– Da minha parte, não. Absolutamente. Não é o que mais gosto de fazer, mas faço. Sou mais teatro, sabe? Mas, faço televisão sem problemas.

– É verdade que você tem planos para atuações em teatro e cinema?

– Ah, sim. São coisas que quero fazer integralmente, e não apenas com o tempo que me sobra. Quero me dedicar inteiramente. Então, não dá para fazer já. Cinema, talvez, eu consiga fazer paralelamente. Agora, teatro é coisa que eu teria que parar e me dedicar plenamente, tempo integral.

– Ney, as tais ‘patrulhas ideológicas’ lhe cobram um posicionamento mais efetivo?

– Cobrar me cobram. Mas, não sou obrigado a corresponder aos anseios das pessoas. E depois política é uma coisa em que não acredito. Nem acho que seja solução para nada. Nunca solucionou problema algum. Então, não me vejo obrigado a me envolver com algo em que não acredito. Para ser coerente comigo mesmo, não me envolvo. Não vejo nada mudar. Entra governo, sai governo e tudo permanece igual. Não posso mesmo acreditar nisso. Aliás, só vou acreditar no momento em que as coisas mudarem para melhor, quando as pessoas passarem a viver com o mínimo necessário de decência.

– E o que você da caça às bruxas que as tais ‘patrulhas’ desenvolvem sistematicamente?

– Os que estão caçando hoje, cuidado. Amanhã são eles que podem estar sendo caçados. Normalmente é isso o que acontece. Regra geral: dá agora para tomar depois.

– Ney, defina: qual a função de um intérprete em nossos dias?

– Olha…Não sei qual é a função do artista, do intérprete. Sei qual a minha função, a que me doo, a que acho que é a minha. Sou uma pessoa muito desreprimida, e é isso que pretendo passar para todos. Não fico por aí a levantar o estandarte “Faça o Que Eu Faço”. Nada disso. Na verdade, é faça o que quiser fazer. Mas, fique atento para que consiga fazer o que quiser fazer. Procuro ser um desopressor. Liberdade é mais. Liberdade ampla – e sempre! Liberdade espiritual, inclusive. Sabe? A gente é livre. O espírito é livre. Por consequência, você pode, mesmo diante de tudo o que aí está, se entender um indivíduo livre. Ninguém precisa esperar que o outro lhe diga: “Estou de acordo”.

– É verdade que você, à época do lançamento dos Secos & Molhados, queria adotar o codinome B-250 por causa da timidez?

– Eu não queria ter um nome. Queria ter um número. B-250. À época dos Secos & Molhados, eu não tinha rosto. Era uma máscara – um pouco por timidez, outro tanto porque as pessoas ficavam dizendo que eu seria consumido. Inapelavelmente consumido. Então, passei a acreditar que essa era a melhor solução. Um número: B-250.

– Não lhe parece estranho falar em timidez, inibição? Você que, no palco, se mostra tão seguro de si, desembaraçado a ponto de muitas vezes chocar as pessoas?

– Ah, mas, eu acho que as pessoas mais tímidas são as mais perigosas.

 Para encerrar a entrevista, agora é assistir a Ney Matogrosso em Feitiço e esperar pela nova fase do intérprete, os novos caminhos…

– Não, não sei lhe dizer  quais os caminhos que percorri e que percorro. Sei que vou por aí. Minha intuição me guia. Não tenho medo de ousar. Entro e saio de qualquer uma. A qualquer momento. Sem grilos.

(*) O projeto de Ney Matogrosso – gravar autores tradicionais como Carlos Gomes, Heitor Villa-Lobos, Vicente Celestino e que tais – para o disco de 1979 foram adiados. Em seu lugar, Ney gravou o álbum Seu Tipo que fez um relativo sucesso de público e foi recebido, com ressalvas, pela crítica especializada. Além da faixa título, de autoria de Luís Carlos Góes  e Duardo Duzek, o repertório trouxe quase todos autores da geração surgida nos anos 70 como Luli e Lucina (‘Me Rói’), Fátima Guedes (‘Dor Medonha’), Joyce (‘Ardente’), Mauro Kwitko (‘Último Drama’), entre outros. De autores clássicos, incluiu Tom Jobim (‘Falando de Amor’), uma releitura de ‘Rosa de Hiroshima’, poema musicado de Vinicius de Moraes  e uma das raras versões assinadas por Caetano Veloso (‘Encantado’) para ‘Nature Boy”, de Eden Ahbez.

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1 Response
  • VERONICA PATRICIA ARAVENA CORTES
    17, agosto, 2021

    Que ótimo! Sei que vou por aí…
    Adoro esse cara!

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