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O relato

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Foto: Arquivo Pessoal

Há dias que são assim…

– e, de tão assim que são, a gente faz deles lição de vida e quer compartilhar.

O relato de Lia:

Ser mãe é estar bem próxima ao Divino.

Tenho pouco mais de 30 anos, não sou de ir à Igreja sempre; mas, passei a entender que é assim.

Quero que me ouçam:

Dois dias depois de  dar a luz à minha filha mais velha, eu estava com graves problemas para amamentar.

Hoje, sei que é normal. Mas. à época, ninguém me avisou de nada – fiquei arrasada. 

“Como assim?” – perguntei aos Céus.

Não obtive resposta alguma.

Compreendi, no entanto, que não era mais a mesma (e nunca mais seria quem fui).

Não mais me pertencia autonomamente. 

Havia um elo maior, dádiva perene, que agora regeria meu destino.

Tentei ouvir o que meu corpo dizia.

Os hormônios, que jorravam a milhão para garantir  a criação daquela vida, agora se acalmavam.

Voltavam ao fluxo normal como o leito do rio que corre para o mar depois da grande cheia.

Pareciam indiferentes à imprevisibilidade dos novos tempos,

Minha mente, porém,  relutava em clarear o que estava acontecendo.

Aliás, para ser bem sincera, estava surpresa, e algo desesperada.

Então, eu não seria a mãe maravilhosa como são todas as mães?

Bateu uma tremedeira só de pensar!

Que frustração!

Me vi confusa, desnorteada, à beira de uma pane generalizada.

A tal da amamentação era um martírio.

(Ninguém me avisou, repito!)

Doía demais. Sangrava. Exigia uma técnica, um esforço, um sei lá  que sofrimento.

A garota esfomeada chorava e chorava e chorava.

E eu…

Eu chorava junto.

É o momento em que nos vemos, as mães de primeira viagem, absolutamente sozinhas e sem chão. Por mais que as pessoas estejam ao nosso redor. Falando. Aconselhando. Sugerindo. Tentando nos passar a experiência que cada qual viveu a seu modo.

O instinto de ser mãe, então, nos invade e assombra; por ser novidade, nos deixa atarantadas.

Queremos o melhor para a criança. Sempre.

Preservá-la de toda e qualquer aflição.

E momentaneamente nos vem o sentimento de culpa: não somos ‘o melhor’ para ela.

Somos frágeis, impotentes, incapazes diante de tamanha responsabilidade:

… o milagre da vida.

Intuitivamente, ponderei:

“O que é o melhorn para a menina?”

E desisti.

Simples e traumático assim:

Desisti.

Sim, era o que eu precisava e tinha que fazer.

Não conseguiria alimentá-la como gostaria e seria o certo.

Decisão tomada.

Chamei a enfermeira e, em lágrimas, disse para trazer o leite para ela que a bênção da amamentação não me fora concedida.

A moça nada disse.

Saiu do quarto em silêncio cúmplice – e eu me resignei ainda em pranto.

Minutos depois ela voltou acompanhada de outra enfermeira, uma senhora de olhos luzidios e avental azul, que sentou-se ao meu lado e, pacientemente, se dispôs a ouvir o meu relato.

Quando terminei de falar, eu já não chorava.

A senhora pegou minha mão e disse com voz suave:

“Minha filha, se algum dia tiver que desistir de algo, não o faça num dia ruim. As chances de se arrepender serão bem maiores.”

E concluiu:

” Não tire esse direito de você, nem da sua pequena. Amamentar é um ato de amor.”

Não sei exatamente o porquê lembrei o semblante de Maria Imaculada, Mãe de todas mães, e o manto azul da imagem no altar central da igreja, incrivelmente azul, da cidade onde nasci.

Então, chorei um choro morno, aquietado e bento.

Resolvi agradecer em oração – e persistir.

Foi o melhor que eu fiz.

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1 Response
  • Leila Kiyomura
    23, outubro, 2021

    Que lindo e sensível. Relato doce e delicado do ser mãe… verdadeiramente mãe Lia.
    Mas lembro do pai jornalista como o filho. Um super pai …

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