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Tio Neno e o presépio

Uma de minhas mais antigas – e doces – lembranças é o presépio que o meu Tio Neno armava na casa de meus avós maternos.

O lago era um ajuntamento de pequenos espelhos desses que as senhoras da época carregavam na bolsa para acertar a maquiagem. O chão de terra do caminho sinuoso, que se perdia na cordilheira, era feito de serragem que ele recolhia da marcenaria que existia nos arredores da rua Lavapés. As montanhas, que definiam a linha do horizonte, tinham suas entranhas forradas de bolotas de jornais velhos.

Folhas de papel de seda verde escuro forravam todo o tampo do sisudo móvel da sala. Davam a impressão de um amplo gramado por onde se espalhavam pequenas estátuas de magos, pastores e animais diversos – camelos, ovelhas, o burrico, a vaca, patos e galinhas.

Havia até um sapo que, embevecido, olhava o pescador a alçar um peixe.

Toda essa turma – a exceção do batráquio, creio – se dirigia à pequena estrebaria, de gravetos e palha, encimada por uma estrela brilhante (a custo de cola e muita purpurina prateada).

Ali, era o lugar santificado em que, pouco depois da meia-noite do dia 25 de dezembro, logo após voltar da Missa do Galo, o Tio Neno colocava a imagem do Menino Deus na manjedoura, ladeada por José e Maria.

Era este o ritual na casa da vó Ignes e do vô Carlito, com toda cerimônia e silenciosas orações.

II.

O Natal era assim, antes de tudo uma festa religiosa.

Havia, sim, os presentes, a comilança e, lá pelas tantas, a cantoria generalizada de canções napolitanas, embalada pelas taças de vinho tinto – afinal, eram todos oriundis.

Mas, repito e insisto, o Natal era antes de tudo uma festa religiosa. De congraçamento. Quando amigos e parentes esqueciam as rugas para unirem as vozes e os sentidos numa reverência ao Menino Deus que acabara de nascer.
Era um momento único, raro. De magia e encantamento.

Um momento pleno. De paz e de fé.

III.

Meus olhos de menino sonhador estalavam de admiração.

Eu achava o Tio Neno um artista, desses que saíam na capa da Revista do Rádio.

Ficava feliz quando ele vinha me buscar em casa para vê-lo montar o presépio.
Isso acontecia em meados de novembro.

Eu ficava fascinado ao vê-lo tirando uma a uma, peça por peça, de uma enorme caixa para dar vida e mistério àquele canto de uma sala de estar comum, de móveis sóbrios e escuros.

IV.

Quando garoto até que tentei ter o meu próprio presépio.

Nunca ficou lá essas coisas. Não tenho o talento do meu saudoso tio para recriar, com pompas e circunstâncias, o cenário em que Jesus nasceu.

Com o tempo e outras tantas e inúteis demandas, perdi o jeito (que nunca tive) e o gosto.

Imaginei-me, tolamente, um homem sério, com agenda cheia e compromissos importantes.

V.

Ledo e ivo engano.

Só deixei escapar o menino sonhador para me aprumar no homem cético que – com a idade e os cabelos brancos – entendeu: precisa reaprender a admirar-se com o que está por vir.

Tenha forma e o rosto que tiver.

Porque a vida é mesmo um rosário de breves esperanças.

Que o Menino Deus, renascido, nos ensine a desfia-lo no ano que se aproxima.

Feliz Natal a todos e todas.

* EM TEMPO:

O blogueiro sai de férias. Volta dia desses, em janeiro…

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