Foto: Jardim de uma casa em Roma/Blog do RCM/Arquivo
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Lembro a cena.
Tempos outros. (Virada do século, por aí.)
Diria que o sonho… Bem, o sonho ainda era possível.
Teimávamos, nós, os tolos e distraídos, a esperar a luminosa Era de Aquarius, promessa dos anos 70, onde jovens e não-tão-jovens acreditavam no dedo em V (peace and love), cabelo ao vento, amor e flor, quedê o cartaz…
Pois então…
Às voltas com a chegada do novo século, embarcamos em trupe para um fim de ano na Itália.
Estávamos felizes, por óbvio.
Longas horas de voo, tudo bem.
Tudo vale a pena etc etc etc.
Eis que a tal cena me chama a atenção – e, por algum motivo besta, lembrei-me dela hoje, quando tenho mais dúvidas do que certezas. Quase desacredito…
A cena:
Um menino italiano – se tinha seis anos era muito – tenta se comunicar com outro garoto não_italiano, da mesma idade.
É muito provável que a dupla se conheceu no avião e, naquela fileira central para seis passageiros. Dois casais, cada qual com seu rebento. Dá para entender que têm todos o mesmo destino: Itália.
Os adultos estão em silêncio – e algo admirados.
O italianinho, porém, é falador:
“Papà. Pa-pà… Mamma. Mam-ma… Calcio. Cal-cio… Machina. Ma-chi-na… Tu sei? Capisci?”
O outro – brasileirinho, talvez – sorri encabulado, balbucia alguns sons dispersos; mas, ao que parece, acabam por se entender.
E sorriem felizes, como amigos de longa data.
Concluo:
Bela lição de fraternidade no primeiro dia daquelas já longínquas férias.
Deu-me naquele dia, e hoje também, um toque de esperança. Apesar do voraz buraco negro, do risco da bomba nuclear e das ameaças que nos rondam, ainda teimo e, lá no fundinho de mim, quero mesmo é acreditar num bom futuro.
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Conto essa memória, em primeira mão, para o Escova numa mensagem de zap.
O amigo considera o texto “assim, assim”. Razoavelzinho, como gosta de dizer.
Provocador que é, não se furta a questionar o proposto “final feliz”.
Faz a pergunta.
“Que idade teriam hoje os rapazes?”
25, 26, um pouco mais, talvez – respondo.
E ele dá o arremate que, eu devia saber, viria inapelavelmente:
“Já imaginou de que lado eles estão hoje em dia? Será que o italianinho, agora um rapagão, vota na turma da Gorgia Meloni?”.
Não sei lhe dizer.
Termino a conversa de pronto, antes que me pergunte se tenho notícias do menino brasileiro e, pior, em que ele votará…
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TRILHA SONORA
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