Berlim, 1936.
O registro fotográfico de uma manifestação da ‘saudação nazista’, realizada em 16 de junho daquele ano. Milhares e milhares de alemães estendem o braço em reverência aos símbolos nazistas e ao Führer.
Em meio da multidão, encontra-se um rapaz de braços cruzados em evidente postura de protesto a toda aquela pantomima.
O silencioso“não” ao nazismo.
Seu nome está na legenda da foto: August Landmesse.
…
Quando voltei de Berlim, mostrei a foto que fiz da famosa foto a um amigo próximo que foi implacável no veredicto:
– O homem era um distraído.
Perdi o chão no momento em que ouvi a objetiva avaliação do amigo.
A foto me impactou fortemente quando a vi em exposição no Memorial “Topografia do Terror”, na capital da Alemanha.
Como assim? – perguntei-me atônito.
Será?
Talvez.
Que fosse!
De qualquer forma, assim entrou para a História.
Marcou posição.
Somos as nossas escolhas…
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Sou um areal de lembranças, agora.
Permita-me um entreato, caro leitor.
Anos 50.
O garoto Tchinim brinca distraído entre as mesas e cadeiras, de madeira escura, do Bar Astoria, na rua Lavapés, então movimentada rua do bairro operário do Cambuci, em São Paulo.
O pai e os amigos do pai, “a italianada do barulho”, dizia a vó Ignez, se reúne para jogar Patrão e Sotto, bebericar cerveja e mais cerveja, falar de futebol e corrida de cavalos, lembrar as coisas da Itália e, quando empolgavam-se, punham-se a cantar as cançonetas italianas.
“Catarì, Catarì, pechè me dicisti parole amare; pecchè me parle e o core me turmiente, Catarì?”
Só os via triste, triste mesmo, de chorar em público, uns diante dos outros, quando um sfortunato se punha a lembrar os dias do fascismo, as perseguições e, caspite!, a tragédia da ocupação alemã em território italiano.
Não lhes coube escolha.
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Um corte para hoje,
(90 anos depois.)
Setembro, 2026.
Vivemos o mesmo impasse?
Manhã de quarta-feira, 24. Tempo instável, céu acinzentado. Sem nuvens. Menos frio que ontem, mas ainda frio.
Talvez chova.
“Dia bom é dia de sol”, lembro a frase que ontem usei na modesta homenagem que fiz à memória de Zuenir Ventura – e lhe dou plena razão.
Não sou assim do veraneio, diria. Mas sinto falta dos dias mais calorosos; digamos, iluminados.
O sol há de voltar.
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Vale para o céu da cidade onde vivo.
Vale para o Brasil em tempos de eleições, polarizadas (?), voto a voto..,
Quem vencerá?
Vale para o mundo cada vez mais conectado e dependente “do bater de asas de uma borboleta” num ponto qualquer do planeta.
Para sempre é sempre por um triz, ensinou Chico Buarque na linda canção Beatriz.
“Diz quantos desastres têm na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz”.
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Cenário ameaçador também nas notícias que leio.
Líderes das nações se reúnem na cúpula da ONU e vejo que a polarização também se dá ali, em meio aos pronunciamentos, arranjos e conchavos.
Um tom belicista se sobrepõe.
Há os que ameaçam.
Como a proclamar a própria supremacia, o próprio domínio.
Há quem aceite, aplauda e, pior… Há quem se curve servilmente a tais interesses.
Há os que resistem.
Com o que lhes impõe a dignidade, o senso fraterno e plural.
…
Sempre difícil, árido, falar em herois e vilãos, sem nos aprofundarmos nas nuances de tantas e tamanhas aflições.
Uma lembrança, porém, me move e inspira (ou desespera?).
Naquele dia em Berlim, mesmo estarrecido com a cena que a imagem me mostrava, estava certo, tranquilo até, que a Humanidade aprendera e nunca mais se poria frente a frente a tamanho dilema, a tão devastadora ameaça.
O que faria se… ?
O que faremos?
Enfim…
Somos as nossas escolhas.
Democracia sempre!
…
A CANÇÃO…
…


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