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Querelas do Brasil…

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César Tralli, apresentador do JN/Foto: Reprodução da TV

…

Imaginei por imaginar que sou dado a ficar fantasiando coisas…

Pois então.

Cena 1.

Imagine Willian Bonner a desfrutar de merecido descanso a passear pelo amplo galpão/garagem que abriga sua renomada coleção de carros antigos, Bonner ali, disperso, flanelinha na mão a cuidar do brilho do capô de um antigo Escort XR-3… Bonner, olhar atento, a inspecionar o estado geral do Gol GTX que tantas lembranças lhe causam… Bonner, em puro estado alfa, prazerosos momentos de lazer…

Cena 2.

Eis que, em dado momento, surge a ‘patroinha’ e lhe diz, de forma direta e reta, sem volteios:

“Bô, a Globo anunciou agora que cancelou o debate”.

– Como assim?

“Não sei, Bô. Foi o que acabei de ouvir.”

Cena 3.

O emérito jornalista, ex-editor do JN, corre para frente da TV a tempo de ouvir o sucessor, César Tralli, expressão murcha, timbre instável na voz, a proclamar um editorial supimpa e indignado:

“Nosso dever é o de promover a democracia. Mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais. Por essa razão, a Globo decidiu cancelar o debate desta noite”.

Cena 4.

Bonner franze a testa, balança a cabeça. Está perplexo e, vá lá, tristonho, mesmo assim, está solidário com o substituto e, óbvio, com a empresa. Que fazer? Novos tempos. Nesses devaneios, caminha a passos lentos de volta à garagem, ainda meditativo. Algo dentro dele – a voz da consciência, talvez – lhe traz o pensamento em forma de alívio:

“Olha o tamanho da encrenca que escapei. Que livramento!”.

…

Historietas à parte, foi uma traulitada e tanto para ‘glorioso’ domínio da Globo.

A segunda do ano, eu diria.

O primeiro baque sentido foi a surra que a emissora levou durante a Copa do Mundo.

Vacilou feio ao não adquirir o direito de transmissão de todos os jogos do Mundial – e assim abriu espaço para o protagonismo da CazéTV durante o período da Copa.

Agora, no segundo grande evento do ano, as constrangedoras ‘sabatinas’ aos candidatos e a pulverização do debate entre candidatos à Presidência, histórico momento de eleições passadas que davam à Globo a questionável fama de influir decididamente nos rumos do país.

…

Sinais dos tempos?

Pode ser.

São outros, sim.

Os pilares da nossa democracia correm riscos, estão ameaçados, sim. Mas, não porque não houve debate na Globo ontem. Há interferências outras, maiores que as do Judiciário (onde grupos distintos travam uma deplorável guerra figadal). Há uma notória ameaça à soberania nacional, com os Estados Unidos do abominável Trump e o seu neocolonialismo, além, é claro, do olho gordo em se locupletarem em áreas importantes do cobiçado minério brasileiro.

Quanto aos candidatos, nós já os conhecemos sobejamente. Quem não sabe deles, está indeciso, não seria o púlpito vazio a sofrer impropérios que lhes tiraria quaisquer dúvidas.

…

Enfim…

Gosto de lhes contar histórias, de imaginar o inimaginável, mas há momentos em que a realidade se impõe como ela é.

Este é um deles.

Não houve debate porque a situação escapou ao controle dos mandachuvas globais.

Dono de jornal – vale para conglomerado de comunicação – detesta ser contrariado.

Além do que, e sinceramente, o debate na forma como se formatou seria um fiasco de audiência.

…

Permitam-me ainda dizer:

Faço coro ao hipotético desabafo íntimo do Bonner que inventei:

“Que livramento!”

…

TRILHA SONORA

…

Ainda nenhum comentário.

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