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Deixem que lhes conte uma lembrança que agora me ocorre…
Como vou lhes explicar a sensação que tinha quando, naqueles idos dos anos 80 e 90, eu saía de casa aos sábados e domingos para ir trabalhar?
Eu estava no corre, como se diz hoje em dia, e topava mesmo qualquer parada em frilas variados, fosse no âmbito do jornalismo propriamente dito — cobrindo eventos que ninguém da Redação queria fazer —, fosse em palestras ou cursos complementares na área da Comunicação que me propunha a realizar, seja no Sindicato dos Jornalistas, seja em qualquer outra instituição educacional que topasse organizar.
Não reclamo, não.
Era o que havia para a ocasião.
Mas serei sincero e bem pessoal no que vou descrever.
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Começo com a ressalva de que tudo era feito presencialmente. Sem as jurumelas do online, do home office ou de qualquer outra das modernidades do mundo digital, que já existiam, mas das quais poucos faziam uso nos idos de antigamente.
As entrevistas eram feitas frente a frente, repórter e entrevistado. O telefone era usado para agendar a data e o horário desses encontros ou para confirmar esta ou aquela versão dos fatos.
Pois bem, meus caros, raros e preclaros.
No trajeto entre o modesto sobradinho onde morava e a redação de O Estado, por exemplo, feito nas manhãs de domingo, mais ou menos lá pelo meio-dia, algumas imagens me incomodavam e, exagero meu, quase me faziam chorar.
Um exemplo?
Se passasse por um campinho de futebol onde um bando de mal-ajambrados, destrambelhados, se divertia a correr atrás de uma pelota, a vontade que tinha era de parar o carro, subir as barras da calça e me enfiar no meio deles.
Outra visão do paraíso eram as rodas de amigos, todos ali desocupados, que se formavam nos balcões e nas portas das padarias para discutir sobre o tudo e o nada da vida, em meio a beberragens e petiscos saborosos de bom.
Se topasse com um fagueiro pimpão, embalado em roupas esportivas, a caminho de um dos parques da cidade para o merecido passeio matinal do seu pet…
Ou mesmo quando observava a porta da igreja do bairro e o pessoal, os atrasadinhos que chegaram em cima do laço, ali postado do lado de fora do templo, enquanto acontecia a missa das 11 horas…
Todas essas cenas, vou lhes dizer, causavam-me um mal-estar generalizado, uma sacrossanta “invejinha” danada — e uma vontade incontida de estar ali, no bem-bom de uma vida normal, igual à de todo mundo.
Juro que cheguei a invejar um senhorzinho, de bermudas e camiseta regata, que, numa dessas manhãs, eu o vi a polir seu automóvel, todo fagueiro, flanelinha na mão, em frente a própria casa.
Que tristeza, amigos!
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É bem verdade que, quando chegava à Redação ou mesmo à sala de aula, esses fantasmas todos se dissipavam, matreiros — e, reconheço, ser jornalista tem lá seus encantos e desafios.
Diria até que, especificamente, a Redação sempre foi meu habitat natural.
Além do que, eu escolhi ser jornalista.
(Quer dizer, não tenho tanta certeza assim, mas vá lá… Gosto do que faço.)
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Enfim — e por fim —, creio que meu amável e atento leitor já entendeu de onde vieram essas pueris recordações.
Certo, muito certo, certo mesmo. Vieram no embalo da histórica aprovação do fim da jornada 6×1 para os trabalhadores, aprovada recentemente pelo Congresso, sob os eflúvios das eleições presidenciais.
Vieram também do sorriso da moça que, ontem, me atendeu no caixa da cafeteria. Ela e a turminha estavam felizes que só. Nunca as vi assim. Conversavam entre si sobre as coisas que pretendiam fazer nos dois dias de folga por semana que passarão a ter de agora em diante. Não haviam vivido uma conquista como essa.
“Foi o painho Lula, não foi não?”
Não sei se a pergunta foi endereçada a mim.
Mas foi impossível não lhe devolver um sorriso cúmplice como resposta — e, reconheçamos, com a intenção de voto no dia 25 de outubro. Pela construção de um Brasil de todos os verdadeiros brasileiros.
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TRILHA SONORA
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O que você acha?