O jogo do século para dois times brasileiros. Palmeiras e Flamengo se enfrentam neste sábado (29), às 18h, em Lima, na finalíssima da cobiçada Taça Libertadores. Quem vencer será o primeiro clube brasileiro a ganhar 4 vezes a mais importante competição das Américas. Foto: Conmebol
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Lembrei-me de uma historinha. Antiga para variar…
Fiz alguns ajustes para adequá-la aos trepidantes dias de hoje, véspera da aguardada final.
Confiram!
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A VIDENTE
Lambe-Lambe, o combativo repórter-fotográfico do jornal A República do Ipiranga não andava lá aquelas coisas.
A vida ia e vinha na toada costumeira, nem tanto ao céu, nem tanto à terra, nem tanto ao nem tanto.
As contas pagas com algum atraso, mas sob controle.
Em casa, tudo nos conformes.
No trabalho, a lengalenga de sempre.
Andava levemente nostálgico dos tempos em que fazia e acontecia.
Hoje sentia-se só o pó e a poeira de uma estrada sem fim.
Agora, exatamente agora, a caminho de uma pauta modorrenta, se sentia assim um tanto paquidérmico; lento, desajeitado, fora de contexto.
Detestava futebol.
Precisava, sim, era se renovar. Precisava de uma aventura.
Aliás, pensando bem…
Mas, bem pensando, uma viagem era tudo o que desejava.
Uma maluquice, tipo o Caminho de Santiago de Compostela.
Que tal?
II.
Imaginou a cena – e sorriu.
Ele, nessa altura da vida, posaria de caminhante, peregrino.
Cajado na mão, mochila nas costas, chapéu para proteger a precoce calvície do sol implacável do norte da Espanha.
Típico malucobeleza dos seus tempos de jovem e inconsequente.
Por conta e risco, divertiu-se com a ideia.
III.
Pensava na aventura quando a voz do amigo palmeirense Eliseu, o motora, o devolveu à dura realidade que o aguardava:
— Chegamos, o da fotografia. Não demora, não, que temos de fazer outras pautas.
Sorriu timidamente – e lá foi ele registrar a figura da tal vidente que garantira ao editor flamenguista do jornal saber antecipadamente quem seria o campeão da maior Libertadores de todos os tempos. Diante da casa da senhora que se dizia cigana e fazia previsões na bola de cristal em forma de tablet, desceu da viatura e lá foi ele em busca do esperado prognóstico.
Seria um “furo jornalístico” e tanto.
Pensou na sina do amigo Canetinha, o repórter corintiano, que viria realizar a entrevista com a tal adivinha.
Que sofrimento! Canetinha iria gramar um bocado até formatar o texto com o mínimo de veracidade e o máximo de isenção jornalística.
Com ele, seria vapt-vupt, rápido.
Por curiosidade pessoal, talvez fizesse a pergunta que não quer calar e agitou a redação durante esses dias. Fotografia é assim – clic, clic, clic…
E logo estaria de volta para a lida de sempre.
Nunca entendeu essa paixão desenfreado dos amigos e colegas pelas coisas do Planeta Bola. Enfim… Cada qual, cada qual.
IV.
Na verdade, uma estranha surpresa o aguardava, ali, entre as quatro paredes.
Assim que entrou na sala de atendimento, a pitonisa o confundiu com um dos habituais consulentes, e foi logo lhe dizendo:
— Desista.
Tipo estátua, estancou o gesto de tirar a máquina da bolsa e arregalou os olhos:
Ela continuou:
— O senhor está pensando em fazer uma longa viagem. Subir e descer montanhas, caminhar e caminhar em busca do próprio “eu”…
Eu?, balbuciou perplexo.
— Sim, o senhor mesmo. Desista. Não haverá viagem nenhuma. Sua peregrinação vai ser aqui mesmo. Na lida. Enfrentando os obstáculos que vão aparecer. Apesar de tudo, siga em frente, caminhe firme e silenciosamente. Pois é o passo que faz o caminho.
E concluiu:
— 2026 será um bom ano.
V.
Meno male.
Sentiu um certo alívio.
Respirou fundo e retomou a consciência de quem era e o que fazia ali.
Aproveitou a deixa para identificar-se e, finalmente, fazer a foto.
A senhora não se deu conta do equívoco. Porém, mostrou-se compreensiva, fez pose para a posteridade e reforçou o conselho antes de se despedir:
— Lembre-se: o passo faz o caminho.
VI.
Ainda conjuminava as emoções e o susto quando entrou no carro.
Eliseu,o motora palmeirense, estava ansioso à sua espera.
Pelo roteiro de pautas a cumprir ainda naquele dia e, principalmente, pelo veredito da vidente:
— E aí, lambe-lambe, quem vai ser o tetracampeão? Diga, diga…
Franziu a testa.
Esquecera de perguntar o principal.
Mesmo assim não perdeu a pose e em tom algo enigmático, como um verdadeiro peregrino, acrescentou:
— Vamos, meu caro, deixe de bobagens. Siga em frente. O passo faz o caminho. Que 2026 será um bom ano!
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TRILHA SONORA
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(*) ORIGINALMENTE publicada em 25 de novembro de 2011
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