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Minha memória musical

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Foto: Jô Rabelo

“Tudo é tudo. E nada é nada”- ensinou o sacolejante filósofo contemporâneo Tim Maia.

Que tal hoje eu dar continuidade à minha memória musical que comecei no post de sábado passado, dia 28 – Viver sem música seria um equívoco?

Sigamos, então.

O vô Carlito, na vitrola ao lado do rádio Capelinha, ouvia os tenores líricos Tito Schipa e Beniamino Giglia. Ele próprio, no entanto, a bordo de alguns copos de vinho preferia cantarolar as regionalíssimas “Luar do Sertão” e “De Papo Pro Ar”.

Meu pai, o Velho Aldo, adorava boleros. “Besame Mucho” era a canção favorita.

Dona Yolanda, minha mãe, ouvia rádio o dia todo. Comandava a programação musical lá de casa. Bem verdade que ela entremeava as melodias aos dramalhões das novelas da Rádio São Paulo. Entre um capítulo e outro, porém, as vozes de Caubi Peixoto (“Conceição”), Ângela Maria (“Babalu”) e Demônios da Garoa (“Saudosa Maloca” e “Samba do Arnesto”) invadiam soberanas os aposentos da humilde moradia da rua Muniz de Souza 420.

Meu tio Nandinho era convicto na afirmação:

“Cantor de verdade é o Vicente Celestino”.

O tio Toninho era mais da boemia romântica. Gostava de Nélson Gonçalves e das canções de amores exasperados de Adelino Moreira.

Tio Neno tinha um gosto musical, digamos, exótico.

Tocava castanholas enquanto ouvia música flamenca. Olé.

Uns dez, onze anos mais velho que eu, meu cunhado Waltinho era fã de Orlando Silva. Presenteou a mana Rosa com um vinil 78 rotações com as músicas “Rosa” e “Carinhoso” na voz poderosa do Cantor das Multidões. Querem prova de amor maior?

Waltinho era craque de bola – e também adorava sambas antigos. Com ele, aprendi a gostar de Ataúlfo Alves, Ismael Silva, Noel Rosa, Heitor dos Prazeres, Roberto Silva entre outros bambas.

A mana Doroti, um dia, chegou em casa com um compacto simples de Ray Charles. Um baita sucesso nas rádios. De um lado: “Georgia On My Mind”. Do outro: “I Cant Stop Loving You”.

No meu imaginário, Elvis Presley, Neil Sedaka (que semana passada faleceu, aos 86 anos), Dolores Duran, João Gilberto e a bossa-nova são marcos da virada dos anos 50 para o 60.

“Oh, Carol…”, “A Noite do Meu Bem”, “Chega de Saudade”, a trilha sonora.

Sou da geração do vinil.

Explico.

Digo sempre – e com certa ostentação – que sou da geração dos Beatles e dos Rolling Stones.

É verdade, mas não inteiramente.

Um amigo dos tempos do ginásio, Francisco de Paula Brandão Bisneto, o saudoso ator Chiquinho Brandão (lembram do Prof. Porópópó, do Bambalalão na TV Cultura?), tocava violão (um Di Giorgio de fazer inveja ao meu modesto Giannini) e cantava as músicas de Tom Jobim, Newton Mendonça, Menescal, Carlinhos Lyra, Marcos e Paulo Sérgio Valle.

Eu lhe assistia maravilhado a transitar pelas harmonias e dissonâncias da bossa-nova.

Não conseguia acompanhá-lo para o dueto que nunca existiu.

Virei fã – e já estava de bom tamanho para o meu talento zero.

Verdadeiramente, porém, posso lhes afirmar que o disco que mudou a minha vida foi “Samba Esquema Novo” (1963) de um tal de Jorge Ben. Aquele que tem as eternas “Mas Que Nada”, “Chove Chuva”, “Por Causa de Você, Menina”, “Balança Pema”, entre outros hits (assim que chamávamos as canções de sucesso).

Não era samba, mas era. Não era bossa-nova, mas era. Não era rock, mas a todos sacudia.

Aí, veio a cumplicidade da música com a TV. Pirei com a Jovem Guarda (Roberto, Erasmo & Cia) e a Era dos Festivais – Chico, Elis, Caetano, Gil, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Jair Rodrigues, Milton Nascimento…

A tal da MPB.

Como não se engajar? Como resistir?

Com o Tropicalismo de Gil, Caetano, Tomzé, Nara, Rogério Duprat, Júlio Medalha e os Mutantes aprendi que a música transcende.

Vale o que se sente, o que nos embala e o que nos acarinha fortemente naquela misteriosa sensação que, inesperadamente, vai se aninhar entre o coração e alma.

TRILHA SONORA

Esqueci de citar acima, meu outro cunhado – o Zé Mango. Pacientemente tentou me ensinar os primeiros acordes no violão, pois era músico. Orgulhoso mostrava uma foto em que aparecia como componente de um trio de violonistas e cantantes nos moldes do então famoso Trio Irakitam. Ele aparecia na imagem jovenzinho de tudo, com um violão maior do que os demais. Era responsável por fazer o contra-baixo nas harmonizações das guarânias, boleros e sambas-canções. Mesmo com toda a paciência do Mango, não consegui avançar muita coisa no dedilhar do violão, mas uma dolente e bem interpretada canção de amor, confesso, me tira o chão…

Nota do Autor.

Não prometo quando. Mas, ainda voltarei ao tema. Preciso lhes falar das músicas italianas, da geração de briga da MPB, do Clube da Esquina e de outros roqueiros e afins.

Ainda nenhum comentário.

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