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È una disgrazia!, falava meu avô

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Teerã 28/02/2026. Irã sob ataque dos EUA e de Israel Fortes explosões foram ouvidas em algumas partes de Teerã na manhã de hoje. foto RS/via FotosPublicas

Se bem me lembro, foi o vô Carlito quem, pela primeira vez, me falou sobre a estupidez de todas as guerras.

Meados dos anos 50. Ainda vivia-se o assombro dos estragos causados pela Segunda Grande Guerra.

Vez ou outra, as conversas entre a italianada, no bar do bairro, giravam em torno do sofrimento do povo italiano sob domínio do nazifascismo, da invasão das tropas alemães e da corajosa resistência de uma gente festeira habituada a sorrir e a cantar.

De uma hora para outra, se viram subjugados pelo inimigo, reféns dos bombardeios e das condições subumanas que o conflito armado impõe.

– È una disgrazia!, falava meu avô.

Humilhados em sua própria terra, sujeitos a todos os tipos de atrocidades impostas pelos dominadores, ou eles lutavam ou…

– Ou morriam, vô?, perguntei.

– As pessoas sofriam muito, respondeu.

Por isso, sem alternativa, preferiam lutar e lutar.

A vida é uma benção, um dom, concluía meu avô.

O vô Carlito acreditava piamente que os homens se envergonhavam de toda aquela tragédia.

E que eu e os da minha geração não viveríamos atrocidades semelhantes.

– Impossível a Humanidade não ter aprendido a triste lição.

Meados dos anos 50, como eu disse.

Tudo levava a crer que o novo tempo seria pautado pela fraternidade e a esperança de dias melhores.

Para todas as nações.

– Somos todos irmãos.

Já aposentado como chapeleiro, o vô Carlito, da janela da casa humilde, acompanhava atento o tudo e o nada da existência humana. A vida em movimento, cigarro Fulgor no canto da boca e o copo de vinho ao alcance da mão. Fala mansa a lembrar uma ou outra história dos pais napolitanos, a coragem dos scugnizzi na libertação de Nápoles dos comandos inimigos e a embalar o neto caçula com os versos cantados de Luar do Sertão.

– A vida, meu neto, é uma benção, um dom… Para ser apreciada e, principalmente, vivida. Importante é fazer por merecê-la

Recupero hoje – e tristemente – o trecho do conto O Alfaiate e o Chapeleiro porque não lhes trago novidade alguma sobre o iminente colapso da Humanidade diante dos conflitos que a desfaçatez de ridículos tiranos, a gozo próprio, espalham mundo afora.

O que sei está no noticiário – e o que posso acrescentar é o comentário que fez o vô Carlito, quando eu ainda era meninote:

– È una disgrazia!, falava meu avô.

Como chegamos a este ponto, mesmo velhinho, não sei bem o que lhe acrescentar.

Sinceramente, cada vez mais, me convenço que é vã qualquer tentiva neste sentido.

Olhem o dilema que derreia.

Quem pensa como eu, nitidamente, é alguém bem parecido comigo e, um pouco ali, outro tanto aqui, sabe o que eu sei. Provavelmente leu os mesmos livros, bebeu das mesmas fontes de informação, deplora as fake news, o autoritarismo, a vilania e se equilibra no respeito aos mesmos princípios e valores.

Quem não pensa como eu…

… admira o Senhor das Guerras e seus asseclas – e clama:

“Help, my president Trump! Help.”

Meus caros e preclaros,

não gostaria, nessa altura da minha longeva jornada, estar a escrever essas linhas.

Prefiro mil vezes mil continuar a lhes falar sobre o inventário musical que comecei a publicar, por aqui, no sábado passado – “Viver sem música seria um equívoco”.

Ainda resta-me a esperança de voltar a ele e às minhas historietas proximamente.

Mas, hoje, não tenho como fechar os olhos e o teclado para o caótico momento que vivemos.

Ontem a moça – ali, por volta dos 30 anos, recém-casada e que sonha ser mãe – identificou o jornalista e lhe fez as perguntas que o veterano repórter, acabrunhado, não soube responder:

“Hoje você não escreveu. Por que? É verdade que a terceira guerra mundial já começou?”

Diante do meu balançar de ombros e constrangido silêncio no Blog e na vida, concluiu por conta e risco:

“Puxa, o que o futuro nos reserva? É muita responsabilidade pôr uma criança no mundo de hoje, não?”

É o que querem…

Que abramos mão dos nossos sonhos, mesmo os mais sagrados e belos.

E mais:

Cliquem nos títulos abaixo para ler a íntegra do conto sobre o vô Carlito e o vô Rodolfo.

O alfaiate e o chapeleiro (*)

O alfaiate e o chapeleiro – 2

TRILHA SONORA

Reitero aqui o que digo e escrevo há algum tempo:

Se o mundo não deu certo, não foi por falta de trilha sonora.

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