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Chuvas e trovoadas

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Foto: Jô Rabelo

…

Eita, sô…

Que a manhã está chuvosa e triste.

E, olha, que vacilão, acabou o remédio da pressão. O Losartana que tomo assim que acordo.

Tem jeito não.

Terei que me dar ao trabalho de bater a pé até a farmácia mais próxima de casa.

Recorrerei ao velho e bom guarda-chuva.

Melhor encarar.

…

Vou que vou no passinho miúdo.

Passo na padaria para um rápido café.

Uma boa surpresa quando paro na faixa de pedestres: os senhores motoristas educadamente param seus nobres veículos para eu e mais dois cruzarem até o outro lado da rua.

Nem tudo está perdido, penso comigo.

…

Alguns minutos depois chego à farmácia.

No caminho, reparei que o ponto de ônibus estava lotado. Uns aguardavam a chuva passar, creio. Outros, olhos atentos ao movimento dos coletivos que chegavam, motores bufando, e saíam.

Mal consegui passar entre a turma que estava por ali, sob a tímida aba do abrigo de alumínio

…

Já fui bom nisso.

Enfrentei muitos salseiros como esse quando era garotão. Morava no Ipiranga, estudava na Cidade Universitária e trabalhava, à tarde, no Jardim Moreira, periferia de Guarulhos.

8 busões.

É mole? Ou quer que mexa?

Não reclamava.

Havia um sonho no horizonte.

…

Volto.

Caminho diante do banco onde tenho conta. Lamento que não esteja aberto. Poderia antecipar os pagamentos do dia 10, conversar com a gerente da minha conta, saber os limites da vermelhidão do meu saldo.

A grana cada vez mais curta.

O mês cada vez mais longo.

Olaiá.

…

Passo pela parada – e agora reparo que está quase vazia. Só há uma garota por ali sentada em um dos assentos de aço sob a cobertura.

Ela sequer se move com o ir-e-vir dos coletivos.

Está encolhida envolta no grosso casaco de lã, cabeça curvada, o rosto encharcado de lágrimas.

Tem uns 20 anos, se tanto. Pouco mais, pouco menos.

Sente a minha aproximação, ergue a cabeça, olha e, tenho certeza, ruminando seus dilemas, não me vê.

…

Tenho o impulso de lhe fazer companhia ali.

Tentar uma conversa. Confortá-la.

Por vezes, me imagino o oráculo do mundo só porque tenho sessenta e quase todos os anos.

Que tolo que sou.

…

Sigo em frente.

Recupero de memória uma frase que me é rotineira:

“A única pressa que hoje tenho é de chegar em casa.”

Mas, reconheço, a aflição da moça passou a ser minha também.

…

Qual será o motivo?

Um caso de doença na família?

Algum desconforto momentâneo, queda de pressão, coisa assim?

O amor que se foi?

(Mas é tão jovem, logo outro baterá à porta.)

Ou…

O que é mais provável, aquele que assola a milhões de brasileiros, especialmente nossa linda juventude…

Falo do desemprego, da falta de perspectiva, do cotidiano que engole a chance de um amanhã promissor.

…

Fico pensando.

Como seria se fosse: se hoje eu tivesse 20, 30 anos e me deparasse com o desafio de construir uma carreira neste país estraçalhado por governantes toscos, desumanos, que menosprezam a Educação, apostam em armas, no ódio e no retrocesso?

Muito provavelmente estaria como a moça, sentado à beira do caminho, sujeito a chuvas e trovoadas. Sem perspectivas, sem amparo social, sem a chance de semear o próprio futuro. Sem ilusões.

É, meus caros, tenha a idade que tiver, acreditem: é impossível viver sem um sonho bom, um sonho solidário. Que é nosso, sim; mas, deles (os jovens) e de todos, principalmente.

 

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