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A garota que tocava bongô

Todas as noites havia um show no átrio do Hotel Nacional, em Havana.

Era um quarteto que ali se apresentava – um rapaz e três moças.

O marmanjo comandava o grupo. Era tecladista e também arriscava um ou outro vocal.

Duas das meninas alternavam-se nas interpretações – e a terceira, a mais jovem, tocava bongô.

E dançava.

II.

Ah! como dançava a garota que tocava bongô!

Não a vejam como uma rumbeira, de trajes típicos e cousa e lousa e maripo(u)sa.

Vestia um pretinho básico e não arriscava coreografias retumbantes. Apenas acompanhava o ritmo das dolentes e sacudidas canções com um meneio de quadris e passos marcados, com brevíssimas variações, pelo tuntuntum que simultaneamente batucava ágil e graciosa.

Detalhe: não sorria, nem se pretendia exibida.

Entregava-se à melodia, como se ninguém mais estivesse ali.

O instrumento e a melodia eram seu mundo.

Aliás, os amigos leitores devem saber que não existe música cubana – ou caribenha – sem uma caliente percussão – e, dentre todos os instrumentos do gênero, o toque do bongô é insuperável.

Ainda mais, creiam, quando tocado pela garota que tocava bongô no átrio do Hotel Nacional.

III.

Não preciso dizer, mas digo, que a turistada – homens, na maioria – espalhava-se pelas poltronas e pelos jardins, com vistas para o Málecon, para bebericar, saborear a música e se deliciar com a cena, algo inusitada para olhos de além-mar.

Ao cabo de duas ou três seleções, o band-leader pedia ‘permisso’ para um breve intervalo musical, momentos em que as moçoilas deixavam seu espaço para oferecer, de mão em mão, um modesto CD em que o grupo gravara o seleto repertório.

Nas noites que andei por ali, reparei que, da pilha de CDs que as moças levavam para a venda (10 dólares cada), a única que voltava de mãos vazias era exatamente a garota que tocava bongô.

IV.

O motivo parece mais ou menos óbvio.

Mas, acreditem, não é tão simples assim.

Podem acreditar. Não exagero.

Havia algo de sublime na garota que tocava bongô, enquanto dançava e tocava bongô.

V.

O Hotel Nacional é famoso por ter hospedado, ao longo de seus 80 anos, personalidades que mudaram a história do mundo. De Frank Sinatra ao presidente Kennedy. De Juan Manoel Fangio à Marlene Dietrich. De Nat King Colle a Hemingway.

Há uma sala especial com fotos de toda essa gente para comprovar e dar fé no que digo.

Se fosse eu o gerente da Casa, não teria dúvidas em arranjar um cantinho para a foto da garota que toca bongô.

Ela também sabe se fazer inesquecível.

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