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A importância de lembrar Vlado (Jornal da USP)

A morte do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975, é um marco que propõe uma reflexão sobre os caminhos trilhados pelo Brasil nos últimos 30 anos

RODOLFO C. MARTINO, ESPECIAL PARA O JORNAL DA USP

O jornalista não deve temer chegar ao fundo do poço na busca dos fatos, da verdade. É preciso encarar todos os sacrifícios que essa verdade impõe. Não é lá muito fácil. Mas, se não for assim, é melhor procurar outra profissão.

As palavras não foram exatamente essas, mas o teor da conversa, sim. Inesquecível para o estudante de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, lá no mais longínquo dos anos, 1975. A voz convicta do professor, aliás, não deixa transparecer qualquer rancor. Ao contrário. Não quer impor nada a nenhum dos presentes. Fala naturalmente ao destacar a seriedade que a profissão, esta sim, exige, ainda mais se considerarmos a áspera realidade que o País vive.

Um grupo de alunos ameaça reclamar. Todos – enfatiza o professor –, todos estão convocados a trocar um provável fim de semana ensolarado pela presença obrigatória no campus da USP. A idéia é fazer um “raio x” dos problemas que a Cidade Universitária apresenta em termos de infra-estrutura e planejamento urbano. Alguém lembra: os estudantes ainda não viram publicada sequer uma linha dos trabalhos que realizaram ao longo de quase três anos de curso. Dá para imaginar que toda essa “correria” será em vão. A disciplina é Telejornalismo e não há equipamentos, sequer uma câmera, para a realização de tamanho projeto ou de qualquer outra cobertura que fosse – a inauguração de três “preciosos” espelhos d’água artificiais em frente à ECA, por exemplo.

O professor responde que trabalharão com máquinas fotográficas e posteriormente será montado um documentário audiovisual. O que importa mesmo, ressalta, são o conteúdo, as reportagens, o serviço que prestarão àquela comunidade e seus arredores. Não há formalismos, nem pose de “dono da verdade”. Apenas deixa bem nítido que ele não está ali só de passagem. Traz um aspecto cansado de quem trabalhou madrugada adentro – é diretor de Jornalismo da TV Cultura. Os alunos se convencem quando ele encerra o assunto repetindo o alerta: “Se não for assim, é melhor procurar outra profissão”.Semanas depois, no espetáculo Brasileiro: profissão esperança, os atores em cena – Paulo Gracindo e a cantora Clara Nunes – mostram-se emocionalmente abalados, desconcertados. Há uma atmosfera de tristeza e indignação. Talvez as personagens de Vianinha (Oduvaldo Viana Filho) pedissem esse desassombro. Fim da sessão, aplausos. E as cortinas se fecham. Os aplausos continuam. Os atores reaparecem. Clara não contém as lágrimas. Gracindo dá a notícia: sábado, 25 de outubro de 1975, o jornalista e professor Vladimir Herzog morreu tragicamente nas dependências do DOI-Codi de São Paulo. “É preciso encarar todos os sacrifícios”, alguém pensa na platéia. Entende-se agora a tristeza e a indignação.

E a história deste país começa a mudar. São os tempos da repressão. O governo Médici fez “escola”. E mesmo o general presidente Ernesto Geisel encontra sérias dificuldades para conter “abusos” em São Paulo. Organismos militares e paramilitares agem descontroladamente em nome do que entendem “segurança nacional”.
Golpe no golpe

Em setembro deste ano, o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo na época da morte de Vlado, Audálio Dantas, participou da 4a Semana de Jornalismo – Herzog, 30 Anos Depois, promovida pela Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas da Universidade Metodista de São Paulo. No encontro, ele lembrou que havia uma cisão entre os próprios militares. O grupo liderado por Geisel, que tinha como mentor intelectual o chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, queria devolver o governo aos civis e deu início a um processo de abertura democrática, convenientemente definida como “lenta, total e gradativa”.

Em contraponto, militares ultraconservadores, liderados pelo general Sílvio Frota e pelo general Ednardo D’Ávila Mello, comandante do 2o Exército de São Paulo, não se dispunham a abrir mão do poder. “Havia uma disputa, uma luta entre essas duas correntes. Ou seja, um movimento subterrâneo que a gente pode considerar um golpe dentro do golpe. Estabeleceu-se uma guerra dentro do próprio sistema. E a sociedade ficou no meio dessa guerra. Houve uma onda de prisões arbitrárias que atingiu vários setores da sociedade. E, no início de outubro de 1975, atingiu os jornalistas, que eram tidos como pertencentes ao Partido Comunista Brasileiro e estariam tentando reorganizar o Partidão, então na clandestinidade. Foram 11 jornalistas presos até que Herzog se apresentasse na manhã daquele sábado. Ele foi o décimo segundo”, disse Audálio Dantas.

A morte de Vlado foi a primeira arbitrariedade a escapulir da ação dos censores e dos cães de guarda do que chamavam “ordem pública”. Foi a primeira notícia a “passar” ao brasileiro médio de que o País estava subjugado à nefasta ditadura. Apesar do famigerado “milagre econômico”. Apesar da aparente tranqüilidade. Apesar da propaganda massificadora sob o lema facistóide “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
Ruptura

Apesar de tudo, havia muito a ser feito. Especialmente para quem exercia a função de jornalista, no entender do diretor de Redação da revista Carta Capital, Mino Carta, também presente na 4a Semana de Jornalismo da Metodista. “Tive um grande envolvimento com esse episódio. Entendi ali que o País precisava de um jornalista e não apenas de um profissional de imprensa”, afirmou. No livro Castelo de âmbar, Carta escreve na pele de seu alter ego Percúcio Parla: “A morte de Vladimir Herzog é o ponto de ruptura. Mino sabe que a sua concepção de jornalismo já não se justifica à sombra da arvorezinha, símbolo da Abril, e o impele na direção de outras experiências”.

No encontro na Metodista, o diretor de Redação da Carta Capital retomou o tema e acrescentou: “Naquele momento, apesar de tudo, apesar dos riscos, sentíamos uma grande esperança. Acho que a morte do Herzog é um ponto de partida muito importante. As contradições da ditadura começaram efetivamente a se definir e a se revelar”.

Os dias que se seguiram foram de muita movimentação. E apreensão. Políticos do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), jornalistas, líderes sindicais e religiosos, representantes de entidades e estudantes preparam um culto ecumênico na Catedral da Sé. O arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo James Wright, da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (Ipub), recebem ameaças e recomendações para os riscos da manifestação. Não se intimidam e seguem com o projeto. No dia da cerimônia – sexta-feira, dia 31 –, a cidade amanheceu tomada por comandos que, espalhados em pontos estratégicos, interceptam a quem bem entendem. Querem dificultar o acesso de quem planeja chegar ao ato. Mesmo assim, 8 mil pessoas lotam a catedral e os arredores da Praça da Sé para reverenciar a memória de Vlado.

Diz Audálio Dantas, um dos articuladores do culto e da corajosa posição dos jornalistas naqueles dias: “Acho importante que se situe aquele momento. O culto ecumênico e todas as repercussões da morte de Herzog mostraram que não aceitávamos a versão do suicídio. Houve um crescimento do movimento, a partir do Sindicato dos Jornalistas e dos estudantes. E o culto, com a presença do cardeal arcebispo de Pernambuco, Dom Hélder Câmara, representou o principal momento em que a sociedade, por intermédio de várias organizações, despertou para uma situação que não podia continuar. Foi a gota d’água, o ponto de partida para um processo que, daí para frente, cresceu no sentido de denunciar as violências que eram cometidas pela ditadura. E que eram inadmissíveis”.

No documentário Catedral. Um silêncio em memória a Herzog, exibido pela TV Senac em 25 de outubro deste ano, o arcebispo de São Paulo em 1975, Dom Paulo Evaristo Arns, lembrou suas palavras no culto. E o silêncio que se seguiu após serem proferidas. “Ninguém toca impunemente no homem que nasceu no coração de Deus”, disse. “Nas minhas dores, ó, Senhor, fica ao meu lado”, responderam os presentes.
O culto ecumênico realizado em 31 de outubro de 1975: indignação
Começo do fim

Silêncio mais absoluto e representativo fez-se quando foi anunciada a presença de Dom Hélder, que, por sua posição em defesa dos oprimidos e da democracia, estava proibido pelos militares de fazer qualquer pronunciamento público – mesmo que fosse um sermão dominical. Naquela sexta-feira, em pleno altar, Dom Hélder confidenciou ao ouvido de Dom Paulo: “Hoje o chão da ditadura começou a tremer. É o começo do fim”. À saída da catedral, os repórteres perguntavam o que Dom Hélder tinha a dizer: “Senhores, há momentos em que o silêncio fala mais alto”.

À revista Aventuras na história, de outubro de 2005, o jornalista e historiador Elio Gaspari, autor do livro A ditadura encurralada, que narra esse período, ressaltou: “A ditadura, com sua ‘tigrada’ e seu aparato policial, revelara-se um anacronismo que procurava na anarquia um pretexto para a própria reafirmação”.

No livro, ele dá mais detalhes: “À noite (de segunda, dia 27), a sede do Sindicato dos Jornalistas está repleta. Audálio Dantas preservava a todo custo sua conduta legalista. Evitava complicações chamando a assembléia de ‘reunião de informação’. Mantinha os comunicados em linguagem seca, sem adjetivos. Não dava seguimento às sugestões de passeatas, nem ouvidos aos estudantes. Até que aconteceu o inevitável: um jornalista propôs que o sindicato convocasse a população para um ato religioso pela memória de Herzog. A cerimônia foi marcada para sexta-feira. Não se sabia onde, mas na manhã seguinte o cardeal Arns tomou a iniciativa. Ofereceu a catedral da Sé e informou que lá estaria”.

Outubro de 2005. A colunista da Folha de S. Paulo Mônica Bergamo abre sua coluna do dia 2, domingo, com uma entrevista com o ex-governador de São Paulo Paulo Egydio Martins. Na verdade, é uma não-entrevista. Ele se mostra irredutível em seu silêncio sobre Vlado: “Dei umas mil entrevistas sobre o Vlado. Primeiro foi uma entrevista longa para o Paulo Markun (autor do livro Vlado). Então falei para todo mundo. É uma repetição enfadonha. Eu não vou passar mais 30 anos falando do Vlado”. E acrescenta: “Parece um problema classista. Os jornalistas querem fazer um mártir. Vlado é de fato um mártir. Mas e o Manuel Fiel Filho? Por que não me entrevistam sobre ele?”. Diante da insistência da entrevistadora, faz um desabafo: “Eu falei duas horas para a TV Globo e só colocaram 30 segundos no ar. Sempre conversei de maneira absolutamente aberta e transparente com os jornalistas. Mas, confesso, está na hora de mudarmos de assunto”.

Desconforto – “Importante conscientizar as gerações do futuro para nunca mais se omitir diante das injustiças.” Essa declaração é do rabino Henri Sobel, feita ao documentário A presença de Herzog, exibido no dia 5 de novembro pela TV Cultura. Um contraste à postura intransigente do ex-governador. Cabe, porém, uma ressalva. Paulo Egydio foi governador de São Paulo por indicação do presidente Ernesto Geisel e seu nome andou na lista dos “procurados” pela ala dos militares radicais que mataram Herzog. Portanto, é compreensível o desconforto.

Paulo Egydio era o alvo. A estratégia da “tigrada” era emperrar o processo de abertura democrática, defendido por Geisel, Golbery e pares de caserna. Para isso, imaginavam mostrar a fragilidade do presidente Ernesto Geisel em conter o chamado “avanço comunista”. Queriam tachar o governador Paulo Egydio de, no mínimo, estar acobertando uma horda de “vermelhinhos” nas dependências da TV Cultura. “A prisão de Herzog era o primeiro passo nesse sentido”, disse o jornalista George Duque Estrada, também presente na 4a Semana de Jornalismo da Metodista.

Por meio de Herzog, chegariam ao secretário estadual da Cultura, o empresário e bibliófilo José Mindlin, e assim, através deste, emparedariam Egydio e conseqüentemente o presidente Ernesto Geisel. “Na noite do sábado em que morreu Herzog, por coincidência, havia festa na casa do ministro do Exército, Sílvio Frota. Durante o jantar, fizeram um brinde ao ‘futuro presidente da República’. Não era o primeiro”, conta Gaspari em A ditadura encurralada. Frota era um dos interessados no recrudescimento do regime – e uma pedra no caminho da redemocratização.

Apesar de reconhecer as razões do ex-governador para não falar no assunto, as palavras do rabino Sobel fazem mais sentido. As novas gerações precisam conhecer esse fato que, queiramos ou não, mudou a cara do País.
Jornalismo

O 25 de outubro merece mesmo reflexão – e até uma avaliação do que se andou fazendo nos últimos 30 anos. Especialmente no âmbito do jornalismo, as discussões parecem hoje intermináveis. Uma boa referência desse desenvolvimento está no livro O jornalismo dos anos 90, de Luís Nassif, outro estudante da ECA nos anos 70. “Dos anos 50 a meados dos anos 60, o jornalismo foi refém dos partidos políticos. De meados dos anos 60 ao final dos anos 70, refém da ditadura. Nos anos 80 descobriu sua verdadeira vocação em uma sociedade de mercado moderna: ser representante dos interesses difusos da sociedade contra interesses políticos, corporativos e setoriais”, escreve Nassif. “O passo seguinte foi se ver como um produto, que tem que responder às expectativas do seu público. A mídia passou a recorrer a departamentos de pesquisa, a leituras imediatistas do que as pesquisas mostravam, a tentar atender às demandas de curto prazo do leitor. E aí se tornou refém do pior censor: ditadura da opinião pública ou, melhor, de atuar passivamente oferecendo ao leitor aquilo que pensa que ele quer. Esse é o grande dilema da imprensa de opinião do século 21: atender às expectativas imediatas de seu leitor ou ser uma guardiã dos valores da civilização.”

Por tudo o que representou, o caso Vladimir Herzog é emblemático para a história recente do País. Para a história do jornalismo, porém, diria que é um marco e ainda hoje joga luz sobre uma série de questões que permanecem em foco. A saber:

1) Nos últimos 30 anos, foi um dos raros momentos em que o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo desempenhou papel de liderança e aglutinador do interesse de toda a categoria. Sua atuação, comandada por Audálio Dantas, foi vital para a projeção e divulgação da barbárie junto à opinião pública.

2) É fato que a pressão feita da base (a redação) para a direção dos jornais foi importante para a divulgação da verdade – Herzog morreu assassinado pelos torturadores.

3) Os “patrões” aproveitaram-se dessa brecha para negociar, com o então ministro da Justiça, Armando Falcão, soluções que mais lhes aprouvessem. Numa dessas ocasiões, a família Civita, proprietária da Editora Abril, negociou o fim da censura na revista Veja com a demissão do diretor de Redação Mino Carta, segundo relata o jornalista em Castelo de âmbar.

4) Mesmo assim, foi outro raro momento em que empresários dos meios de comunicação e profissionais de imprensa estiveram do mesmo lado, com um inimigo comum: a ditadura.

5) A lembrança e discussão do caso Herzog trazem à tona uma realidade distante das novas gerações. Essa tônica trata das implicações sociais e transformadoras que acarreta o exercício da profissão.

6) Hoje o glamour de ser jornalista está em alta – muito provavelmente, a partir da notoriedade que a televisão consagra a quem apareça na telinha.

7) Talvez por isso os profissionais de imprensa estão mais preocupados com a ascensão social e financeira – nenhum demérito nisso, aliás – do que propriamente com exercer as funções crítica e fiscalizadora que todo e qualquer jornalista deve exercer.
Por isso, a importância de lembrar Herzog.

Também é importante lembrar Vlado nestes dias em que o Brasil vive mais uma de suas crises políticas e institucionais. Política, sim, porque a esperança deu lugar ao medo, perdendo-se em Valdomiros, mensalões, Dirceus, Correios, Valérios e assemelhados. Institucional, sim: a pecha da corrupção paira sobre os três Poderes e sobre os homens públicos.

Importante lembrar Vlado porque muitos já se esqueceram das excrescências que todo regime arbitrário perpetra onde se instala. Também porque nunca é demais reafirmar os valores democráticos e universais. Importante lembrar Vlado para que possamos reiterar a fé neste país e na sua gente.
Salvação da pátria

No dia 1º de abril 1964, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony convalescia de uma intervenção de apendicite em sua casa no Posto Seis, Rio de Janeiro, quando foi “convocado” pelo poeta Carlos Drummond de Andrade a assistir “às confusas operações que se processavam no Forte de Copacabana”.

No dia seguinte, o jornal Correio da Manhã saía às ruas com a crônica “Da salvação da pátria”, a primeira de uma série que Cony escreveria sobre sua estupefação diante da nova ordem social, e que seriam reunidas no livro O ato e o fato. A crônica termina assim:

“Das janelas, cai papel picado. Senhoras pias exibem seus pios e alvacentos lençóis, em sinal de vitória. Um Cadillac pára perto do ‘Six’ e surge uma bandeira nacional. Cantam o Hino também Nacional e declaram todos que a pátria está salva.
Minha filha, ao meu lado, exige uma explicação para aquilo tudo.

– É carnaval, papai?
– Não.
– É campeonato do mundo?
– Também não.

Ela fica sem saber o que é. E eu também fico. Recolho-me ao sossego e sinto na boca um gosto azedo de covardia.”
Onze anos depois, Herzog não suportou “o gosto amargo”. E pagou com a vida. E o Brasil nunca mais foi o mesmo. No dizer de Frei Beto: “Furaram os olhos da Justiça, mas não lhe ensurdeceram nem lhe apagaram a memória. Trinta anos depois, Vladimir Herzog é um cadáver insepulto, subversivo, paradigmático. Tratado como um verme numa dependência policial-militar, figura para sempre na galeria de heróis e mártires brasileiros”.

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