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Chacrinha e os panfletos

Chego ao saguão do Hotel Normandie por volta das duas da tarde. Tenho uma entrevista com a cantora/compositora Fátima Guedes – uma menina ainda, um talento promissor – que lança o novo disco com as bênçãos de grandes nomes da MPB, como João Bosco, Elis, Djavan, entre outros.

Estou com tempo e resolvo esperar o repórter-fotográfico, Robson Fernandjes (naquela época, era só Fernandes mesmo sem o “j” da numerologia), na porta do antigo prédio no centro velho de São Paulo.

Fico surpreso com o que vejo – e mais uma vez lamento o atraso do Robson para registrar a cena: o apresentador Abelardo Barbosa (ele mesmo, o Chacrinha), em trajes civis, e duas chacretes, também com roupas convencionais, panfletam em meio à multidão que passa pela calçada da Avenida Ipiranga e também se espanta.

Alguns chegam a duvidar que a cena é real.

Tão real quanto justificável.

Recebo o pequeno folheto da chacrete de plantão e leio o inevitável: todos estamos convidados para assistir a Buzina do Chacrinha em seu novo endereço, a TV Bandeirantes.

II.

Óbvio dos óbvio.

Naqueles idos de 70/80, longe dos holofotes estelares da Globo, o Velho Guerreiro não se conformava com o residual de telespectadores que a nova casa lhe oferecia e tentava, no corpo a corpo, tal político em campanha, alavancar os índices de audiência a níveis nunca dantes visto pelos lados do Morumbi.

Para isso, topava todos os sacrifícios, todos os expedientes.

Combatia o bom combate. Até porque sabia que, além do orgulho próprio de continuar sendo o Chacrinha mesmo longe da emissora mais popular do País, dele (e do seu programa) dependiam dezenas de famílias. Produtores, músicos, técnicos, assistentes de palco e as chacretes… Ah, as chacretes.

Entendi que ali não estava o Velho Palhaço e, sim, um homem comum, um batalhador incansável. Em essência, ali estava, principalmente, um homem triste, algo amargurado.

Foi a impressão que me passou naquela tarde que se perdeu no tempo.

III.

Resumo da ópera: entrevistei Fátima Guedes por hora e tanto (a carreira da moça não vingou tanto quanto se esperava) e o Robson não apareceu (tratei de me arranjar com as fotos de divulgação que a gravadora me disponibilizou). Ao sair do Normandie, topei com a mesma cena: o trio continuava firme e forte na lida.

O show tinha que continuar. E continua ainda hoje. Vá ao Teatro Alfa e deslumbre-se.

O homem virou lenda!

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