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Cora Coralina

por Leila Kiyomura

De volta à velha casa da ponte.
E aos sonhos dessa Goiás de tantas histórias

Enfim, a casa velha da ponte…
desenhada entre versos e contos.
É como se de repente
Cora Coralina fosse abrir a janela
E convidar:
“Entre moça, não fique parada aí…”

Um convite doce
com o sabor das frutas cristalizadas
que ela preparava
com suas mãos laboriosas
nos tachos de cobre…

As mãos goianas
ocupadas a cozer e coser.
E como dizia Cora:
“abertas para dar,
ajudar, unir e abençoar”…

E o rio Vermelho
canta sob a chuva…
Uma voz que acalenta
os sonhos da cidade
de preservar sua história
e ser bonita para sempre.

“Não moça, não chame
nossa Goiás de Goiás Velho”,
protesta Hecival Alves de Costa,
historiador de respeito
com passagem pelo exílio…
“Nossa Goiás há de ser sempre
a menina-moça dessa história”.

Goiás mocinha
com todo encanto
das ruas de pedra,
dos lampiões,
das casas caiadas
de branco, azul, verde…

… da gente de alma boa
que espia o dia
espreguiçar a tarde pela janela.
Gente com pensamento longe
e olhar saudoso…

“Posso tirar uma foto dona?”,
pergunto com cuidado…
“ Pode sim moça…”
Não precisa nem enquadrar..
O retrato tem a moldura
dos troncos serrados
no tempo dos escravos…

“Eh moça…
Essa foto vai
contar o dia mais triste
da minha vida…
Enterrei meu marido ontem…”

É a história de dona Nilza, 83 anos:
“Agostino Manocci, italiano forte
morreu sem nenhum aviso…
Foi embora da minha vida
como chegou há 54 anos”.

Pessoa firme,
que não reclama,
nem corre atrás do tempo
das conversas sem fim
que se avizinham pelas calçadas.

Afinal, Goiás
protegida pelo IPHAN
ganhou nos versos de Cora,
nos quadros de Goiandira
um coração imortal.

Um coração que toca
o coração do visitante…
É só atravessar devagarinho
a ponte secular de madeira
e num instantinho
vem a sensação boa
de chegar em casa…

O pão de polvilho
o cheirinho bom de café
coado sempre na hora
o limãozinho cristalizado
com doce de leite…

Um bem querer
que tempera o feijão tropeiro
de dona Ana Maria Peres.
“Quantas e quantas vezes
Cora mandou buscar esse meu feijão.
E aprovava: “Tempero não é técnica.
Tempero é mão…”.

O encanto pelo fogão
se deve aos doces que dona Ana
bem menininha furtava
da janela de Cora.
Mas como resistir às frutinhas
expostas ao sol para secar?

Encanto e incentivo
que fez dona Ana
dividir seu talento
nos cuidados com marido e filhos,
o restaurante com a porta na praça
e a escola onde se aposentou.

Qual a receita?
“É a vida quem ensina…”,
diz com serenidade.
“Mulher vilaboense é matriarca.
Tem cultura e espírito de luta.”

É essa luta que fez Aninha
ou Ana Lins dos Guimarães
Peixoto Bretas iluminar Cora Coralina.
A menina que saiu de Goiás mocinha
e voltou de cabelos branquinhos
para contar as “Estórias da Casa
Velha da Ponte”…

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