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Crônicas de Viagens – Madri

Fotos: Arquivo Pessoal

50 – O flautista

Não vou lhes mentir e dizer que prefiro MADRI a Roma ou Paris.

Também não seria sincero da minha parte se lhes dissesse o inverso.

Que me gusta mais aquelas do que esta.

Belíssimas cidades, as três.

Na dúvida, e por hora, fiquemos com Madri que é onde estamos.

Com suas avenidas largas, a Plaza Mayor, parques e jardins, igrejas e museus – epicentros de vida, manifesto de harmonia e encantos.

Sempre que aqui chego, tenho a sensação de que a cidade é uma celebração.

Enfim…

Na pauta de nossas visitas, o belo, amplo e elegante Parque Bom Retiro, uma espiadinha no rico acervo de arte e cultura que reúnem as principais instituições madrilenhas – e… hum, hum… uma singela hospedagem no estrelado Hotel Villa Real.

Depois de tantas e tamanhas andanças por plagas que nem Dom Quixote e Sancho Pança ousaram enfileirar, acho que nossa trupe merece esse encerramento de temporada em alto estilo.

Faz um frio suportável, diria.

Basta o bom e velho casaco marrom, companheiro de tantas jornadas outras, para que se tire de letra as baixas temperaturas locais.

Aliás, em algumas tardes ensolaradas, acreditem, fui obrigado a levar o casaco e a blusa de lã nas mãos enquanto caminhava, como de hábito, sem rumo certo.

Permitam-me, visto que hoje é folga da companhia para merecido descanso no tal hotel, lembrar um personagem interessante do tantos quantos pipocaram ao longo do caminho – e abusadamente transformei em protagonistas de minhas crônicas.

Foi no comecinho da viagem, ainda em Santiago da Compostela.

Em um dos nossos périplos, alcançamos o Parque das Alamedas, uma simpática área verde – não tão verde assim no inverno –, com jardins, bancos, coreto, estátuas e patos a nadar num pequeno lago.

Ou seja, tudo o que possuem os tradicionais parques europeus e suas cópias mundo afora.

Estávamos exaustos da caminhada e descobrimos logo ali, do outro lado da rua, uma cafeteria
com mesas e cadeiras espalhadas pela Plaza de Figueroa.

Chance única de nos largar ao sol, depositar os casacos nos cabideiros e beber algo.

Um ‘expresso’ que fosse nos daria a oportunidade de lá ficar por horas a fio, se assim o desejássemos.

Foi o que fizemos.

Pedi um café e uma água.

E me dispus à contemplação.

Uma das coisas que mais gosto quando viajo. Deliciar-me sem nada a fazer, sem tempo, sem compromisso. Apenas e tão somente a olhar o movimento das ruas, das pessoas, dos arredores.

Vicejar, eis o termo.

Pois estava largadaço no meu canto, pensando nas agruras dos seis peregrinos que chegaram naquela manhã à Catedral de Santiago – fazer o tal caminho é uma pedreira em tempo normal, imaginem no inverno! – quando ouvi a melodia ao longe.

Gradativamente, o som se fez mais e mais próximo. Era um tema erudito que não consegui  identificar. Mas, logo percebi que seria desnecessária tal informação. Apareceu um desses
músicos de rua que por si só valia o espetáculo.

Que figuraça!

Pensem num flautista de priscas eras.

Pois, era tal e qual.

Esquelético, cabelo cortado à moda Pigmalião – talvez um exemplo mais atual, mas não tão atual, seria lembrar o estilo Chitãozinho e Xororó no início da carreira – um baita narigão a se destacar
do rosto pálido e triangular.

Vestia-se inteiramente de preto com roupas justas e botas de cowboy, também pretas. Trazia um chapéu — preto, óbvio – enterrado na cabeça que só tirava para fazer a coleta de moedas entre os frequentadores do Café.

Uma figuraça, como disse.

Enquanto tocava, ele nos divertia com passos desajeitados de uma dança esquisita num ritmo que, imagino, o próprio flautista deveria ter inventado.

Assim o homem saracoteava entre as mesas chamando a atenção de todos.

Depois de alguns minutos, o inefável passar do chapéu.

Na Europa, esses músicos de rua são comuns. Ali mesmo, em Santiago, havia um guitarrista de blues ao lado da Catedral. Em Madri, agora mesmo assim que chegamos, vi um violinista
com irrepreensível repertório entre o clássico e o popular.

Creio que foi em Pamplona. Encontrei um senhor a tirar sons celestiais de copos enfileirados,
afinados unicamente pelo volume de água que continham. Ele passava a mão sobre a borda dos copos delicadamente e surgiam os acordes.

Já havia visto coisa parecida em algum circo quando ainda era criança – põe tempo nisso.

Mas, aquele flautista me pareceu único.

Pela performance, pela expressão de duende, pelo improvável daquela tarde de sol tão longe de casa.

Ia solto em meus devaneios e, de repente, o chapéu do flautista e o próprio balançaram à minha frente numa clara alusão do que queriam.

Moedas, moedas, moedas…

Não me fiz de rogado.

Enfiei a mão no bolso da calça e lhe dei todas as que tinha.

Registre-se que não eram muitas (três) e, é provável, de pouco valor.

O homem fez uma expressão de tédio e horror, disse umas palavras em galego que nada entendi
e foi-se embora, tocar sua flauta em outra freguesia.

Olaiá.

O idioma galego é bem parecido com nosso.

Troca-se o J e o G pelo X, mas tudo bem.

Se a xente prestar atenção até que entende alguma coisa sem precisar ir ao coléxio.

Mas, do xeito que o homem esbravexou, naquele dia, Virxem Maria, vai saber o que teria dito?

Tenho certeza, porém, que sobrou pra mim, de mão-de-vaca pra baijo.

Só não sei se bronqueou apenas comigo ou foi um pega xeral.

Na verdade, até hoxe, não aprendi como se diz muquirana em galego.

Mas, estou seguro, foi algo assim que ele disse e olhou de um xeito feio para todos nós.

* Inspirado em texto publicado originalmente em 29/01/2008

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