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Nos tempos da chuteira Olé

É aniversário do Waltinho, do Huracan da Várzea do Glicério.Também conhecido como Solado quando jogava pelo Nitro Química de São Miguel Paulista ou Walter na gloriosa passagem pelo Santos do Cambuci.

Não vi os jogos do Waltinho na primeira fase do Huracan, quando ainda era um jovem e promissor lateral-esquerdo, de fino trato com a bola. Dos seus tempos de Solado, no Nitro Química, soube só que, ali, nos confins da Zona Leste, o bicho pegava pra valer. Boleiro precisava saber do riscado – e também ser raçudo. Importante: uma coisa não excluía a outra. Não bastava ser esforçado, precisava ser craque.

E Waltinho/Solado era.

Tão bom que foi convocado para seleção do futebol de várzea que o jornal Gazeta Esportiva promovia todos os anos. Era uma festa. Formavam-se algumas equipes, tipo bala mistura, como se dizia então, com os melhores jogadores advindos dos mais tradicionais clubes de várzea da cidade. Aí, se realizava um torneio entre os times – e a turma Waltinho/Solado sagrou-se campeão, treinado por um ex-jogador chamado Del Débio.

Os ‘olheiros’ dos clubes profissionais ficavam atentos.

Foi por essa época que ele recebeu o convite para treinar na Portuguesa de Desportos, agremiação ainda considerada entre as cinco grandes de São Paulo. Mas, o moço era arrimo de família – perdera o pai, o barbeiro José, muito cedo – e preferiu não arriscar. Quer dizer, não que tenha preferido, preferido. Desde 14 anos trabalhava de protético – e não iria trocar o certo pelo duvidoso.

Até porque jogador de futebol não ganhava tanto dinheiro assim.

E se as coisas não saíssem lá como ele gostaria e imaginara?

Enfim…

É da vida, dos amores e do futebol em todos os tempos.

Conheci o Waltinho/Solado já Walter quando jogava no Santos do Cambuci – um timaço com ataque inesquecível aos meus olhos de menino: Careca, Queiroz, Espanhol, Afonsinho e Garrinchinha, o primeiro mestiço de japonês com mulata que vi fazendo peripécias com a bola.

Walter fez um ou dois jogos no ‘segundinho’ e logo foi alçado ao primeiro, o time principal. Domingo, sim; domingo, não, o Santos jogava no estádio distrital da Aclimação, campo gramado e tudo. Era imbatível como mandante. Quando saía para jogar fora, no campo do adversário, enfrentava a pressão da torcida rival e as artimanhas dos juízes caseiros. Mesmo assim, sabia se impor em campo e fazia um bonito papel.

Como disse a vocês, eu era menino de tudo, onze, doze anos. Comemorava os gols do Careca ou do Espanhol, mas queria mesmo jogar como o Waltinho jogava. Era tanto o meu desejo que, às vezes, até as chuteiras dele eu pegava emprestadas para dar meus piques no time do Colégio Marista Nossa Senhora da Glória. Sonso do jeito que sou, acreditava piamente que o talento vinha com o par de chuteiras Olé, recém-lançadas, com solado de borracha – uma novidade para a época.

Por isso, ainda agora, tanto anos depois, ainda reluto em perdoar minha irmã Rosa. De tanto choramingar que queria passear aos domingos, ela acabou com a carreira futebolística do Waltinho, meu ídolo e seu marido…

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