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Machado de Assis

Sei que não é de bom tom. Eu mesmo, quando flagro essas situações em jornais e revistas, faço severas críticas aos colunistas e que tais que repetem um artigo do passado como se fosse algo novo, com umas mexidas aqui e outra ali.

Já ‘peguei’ alguns medalhões que usam esse tíbio recurso – não vou declinar nomes aqui porque não é do meu feitio.

É bem verdade que há uns mais talentosos que outros. Fazem uma introdução explicando os motivos do repeteco e coisa e tal. Outros vão na cara de pau mesmo. Trocam o título, dão uma atualizada no abre, outra mais adiante – e mandam ver.

Há ainda os esquecidos e/ou distraídos que contam a mesma história várias vezes.

Ao longo de mais de 600 posts e quase 20 anos de coluna que assinei semanalmente na imprensa escrita, não resisti à tentação e também já caí nessa esparrela. Os motivos são vários. Desde uma natural preguiça que me acompanha desde sempre à falta de tempo e organização que, por vezes, me deixa sentado à beira do caminho, como diriam Roberto e Erasmo.

Réu confesso, vou piorar as coisas ao lhes confessar a minha imodéstia. É que, em determinadas ocasiões, gosto tanto de uma história que resolvo lhe dar mais uma chance…

É o caso de hoje com o post/crônica “Somos Todos Rubião” que publiquei aqui em setembro do ano passado e aproveito para replicá-la a seguir – e na home do nosso site – com este sincero esclarecimento…

É minha modesta homenagem ao centenário de morte do escritor Machado de Assis que hoje se reverencia…

SOMOS TODOS RUBIÃO

Meu grau de dispersão bate recordes inimagináveis às segundas. Depois de um fim-de-semana, então, me sinto um trapo.

Não me recomendaria a qualquer tarefa.

Se por acaso, fosse me dado o ofício de tomar conta de duas tartarugas, estou certo que uma delas escaparia. Não seria surpresa que as duas me dessem um desconsertante vaivém…

Colaboram para tanto e tamanho, este belo dia de sol, a recém-chegada primavera, a idéia ainda que longínqua de uma viagem no fim de ano.

Será que exagero?

É certo, porém, que nesta segunda tenho companhia singular – e adequadas, penso, às cerimônias que reverenciam o centenário da morte do escritor Machado de Assis. São as personagens do romance Quincas Borba, que li vorazmente entre sábado e domingo. Escrito em 1891, impressionou-me a atualidade de todas elas. Inclusive do filósofo, que dá nome ao livro e morre logo nos primeiros capítulos. Antes, porém, consagra duas imorredouras verdades, ditas ao amigo e herdeiro Rubião, o verdadeiro protagonista da trama.

“Filosofia é uma coisa. Morrer de verdade é outra”.

“Ao vencedor, as batatas”.

II.

Como lhes explicar?

Sei que Rubião, Sofia, Palha, Carlos Maria, Dona Fernanda, Maria Benedita, o major, Camacho e o cão a quem o dono lhe deu o próprio nome antes de ir-se desta para melhor, Quincas Borba – pois todos eles estão a instar-me uma melhor compreensão de seus atos e do que o destino lhes reservou.

Pergunto-me, com alguma apreensão, se essas inquietações são deles ou estão em mim e urgem respostas?

Vá saber…

III.

É a terceira vez que repasso a obra. A primeiro que a coloco num patamar de igualdade a Memórias Póstumas de Brás Cubas – onde, aliás, surge o andarilho Quincas Borba – e Dom Casmurro, um de meus romances preferidos.

Aos 15/16 anos, apanhei o livro, de capa dura e verde, na estante da Biblioteca Municipal do Ipiranga. Da narrativa, ficou-me, por motivos óbvios, o perigoso jogo de sedução da bela Sofia a endoidecer os convivas das noites dançantes, o desarvorado Rubião e a mim próprio que, como meus leitores bem sabem, tenho uma inequívoca tendência a ficar imaginando coisas.

Naquela idade, então…

Ombros nus, decotes ousados, “era a mais esbelta das mulheres da Corte”.

Todas as mulheres tomaram formas e trejeitos de Sofia a esgrimir o sim e o não e a divertir-se diante de corações dilacerados pela dúvida.

Registro histórico: achei a personagem parecidíssima com uma certa Ligia que não me saía da cabeça…

III.

Mas, saltemos essa fase de amores primeiros.

Lá pelos 30, quando descobri Fernando Sabino – outro autor decisivo na minha formação –, dei de tornar a ler Machado. Naquela ocasião, não me importou tanto a beleza de Sofia, nem os infortúnios de Rubião. Mas, sim, o proceder velhaco e oportunista de Palha, o venturoso marido de Sofia. Ele negociava com os encantos da mulher. Fartava-se em exibi-la em público, permitia que aventureiros a cortejassem e, muitas vezes, chegassem a situações limites. Tudo para abrir espaços entre os nobres e os ricos.

Usou do fascínio que a moça inspirava em Rubião para tomar-lhe empréstimos que, ao que consta no livro, nunca quitou, e outras benesses financeiras.

Estávamos no Brasil dos estertores da ditadura, a questão ética era soberana. Creio que me deixei levar pelo tom épico do momento.

IV.

A leitura do fim-de-semana foi ótima. Sofia continua lindíssima, uma princesa – e perigosa. Palha confirmou-se como um velhaco aproveitador e Rubião, um desafortunado. O livro prova isto por a + b. No entanto, nunca antes me veio a idéia de como os homens se parecem com Rubião – para tanto, basta apaixonarem-se. Se vêem, então, comio reféns de um sonho por vezes tão próximo de se realizar. Uma realidade quase sempre inverossímil aos olhos da amada que, à moda de Sofia, conduz com maestria o jogo dos amores e da vida.

Não sei quem ganha e quem perde, quem ri e quem chora. Na ficção e na vida real. Não me apraz entrar em juízos de valor. Também não vou além, pois temo lhes estragar o prazer dessa leitura, caso queiram retomar a notável obra de Machado de Assis. Em todo caso, encerro à moda do filósofo que morre antes, mas perpassa por todo o livro a única verdade inexorável.

“Ao vencedor, as batatas.”

Além do que, mesmo numa modorrenta segunda-feira, não é demais ficar atento:

“Filosofia é uma coisa. Morrer de verdade é outra”.

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