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Nos tempos de sir Paul McCartney

Chego em casa a tempo de ver , pela TV, alguns trechos do show de sir Paul McCartney, ontem, em São Paulo.

Meu filhão já está derramado no sofá, querendo entender melhor o que representou para o mundo, especialmente para os jovens, a beatlemania,

Paul intercala canções do repertório próprio e outras tantas (sempre as mais saudadas) dos tempos do Beatles.

II.

Tento explicar com generalizações o que representou o aparecimento os quatro cabeludos e suas canções mágicas para, nós, os garotos sonhadores (e algo reprimidos) dos anos 60. Foi mesmo um divisor de águas, não só no âmbito artístico e cultural; mas principalmente no comportamental.

Digo que a coisa toda já estava encaminhada pela geração anterior, nos destemidos e lavados anos 50, e ganhou visibilidade com Elvis.

A formatação definitiva, contudo, aconteceu com os rapazes de Liverpool. Os terninhos sem gola, as botinhas, o cabelo mais cumprido e em formato de tigela…

E a música, como o carro-chefe de tudo, a falar (e instigar) amores e conquistas juvenis.

“Os jovens passaram a ter voz e vez”, digo com entusiasmo nostálgico.

III.

– Pai, essa não é a música que você gosta?

É.

Ouço “The Long And Winding Road” em silêncio.

Apenas eu e minhas lembranças mais remotas. As ruas de paralelepípedos do bairro do Cambuci, o cine Riviera na Lins de Vasconcelos, a primeira exibição de Help, os amigos do Colégio Nossa Senhora da Glória… Os primeiros amores, impossíveis amores. E o desafio que a letra propõe: a vida é um longo e sinuoso caminho que sempre me leva (ou traz) à sua porta.

– Pai, quem cantava essa música, o Paul ou o Lennon?

– Acho que era o Paul, era o Paul, sim. Vi no filme “Let It Be” (outra canção que me é inesquecível).

Horas tristes, horas felizes, eis a vida.

Leti it be. Deixe estar.

IV.

Paul empunha um violão e vai para frente do palco cantar a remota “And I Love Her”.

Fico tentado a contar ao meu filho que, à época, eu devia ter 14 anos, ameaçamos fazer um grupo à la Beatles. Eu e mais três colegas de classe que sequer o nome deles eu lembro.

Eu seria o John. Tocaria guitarra base. Para tanto, aprendi dois ou três acordes no violão Giannini que o pai me comprou. Fiz mais. Cometi a loucura de fazer uma letra para a dolente canção que ouço agora.

Consigo rememorar apenas o primeiro verso.

“Eu vivo sem ninguém
Sempre tão sozinho
Procuro um alguém
Que me dê carinho”

Ainda bem que o nosso grupo não vingou – e ninguém soube desta minha heresia.

Valeram os devaneios adolescentes.

VI.

Fico sem jeito só de lembrar, e desisto de contar a história para o herdeiro.

Posso perder o que me resta de cartaz que, diga-se, nunca foi lá essas coisas.

Melhor me preparar para ouvir o grand finale.

Sei, de shows anteriores, que Paul encerra com “Live And Let Die” e depois vem o bis com a indelével “Hey Jude”, quando o público vai ao delírio. É a grande e esperada apoteose.

V.

Só que no justo momento em que começam os primeiros acordes de “Live And Let Die”, o Multishow corta abruptamente a transmissão e, sem perdão, enfileira uma série de anúncios – o primeiro deles, acreditem se quiser, é convidando o distinto público a assistir ao show dos magnânimos Bruno e Marrone.

Que falta de sensibilidade!

Ninguém merece…

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