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O que o tempo leva… (2)

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UMA NOVELA BLOGUEIRA  – (Foto: Arquivo Pessoal)

Permitam-me a pausa.

Isadora a merece.

Tenho que reconhecer.

Muito por causa dela passei no vestibular da universidade na primeira chamada – e assim me fiz jornalista e, vá lá, escritor.

Sei, sei que foi há bem mais tempo do que eu gostaria de admitir.

Mas, vale a lembrança.

Tanto queria impressionar a Profa. Isa que por pouco não gabaritei no primeiro simulado de Literatura. Acertei 93 das 100 questões que deveria responder.

Os professores pensaram que eu fosse um gênio.

O cursinho aumentou o desconto da minha bolsa de estudo – o Velho Aldo, meu pai, agradeceu.

E eu tratei de manter a fama.

De boa, na verdade, eu era apenas um garoto suburbano que ouvia Beatles e Rolling Stones – e, tolo que só, se imaginou perdidamente apaixonado.

E Isadora, a Profa. Isa, nem aí pra mim.

Pois é…

Deixemos o passado no passado, voltemos para a Pousada Estrela dos Boêmios.

(Lindo nome, inspirador.)

A programação do dia era repleta, movimentada.

Como disse viemos em bando. Em tese, deveríamos escolher um passeio a ser feito ainda naquela manhã.

A duração estimada – ida e volta -, coisa de duas horas e meia a três horas, fosse qual fosse a aventura.

Almoçaríamos no casarão na volta. Com direito à tal comida típica da fazenda e espiadela nos aposentos ‘históricos’.

Teríamos um tempo para a pequena sesta nas redes que os funcionários espalhariam sobre a tenda – e lá pelas 16 horas seguiríamos para a nossa base em Barreiro.

Chegaríamos à noitinha.

Uma boa jornada, portanto.

Levamos em torno de três horas para subir a montanha. Para voltar, a viagem seria mais demorada.

– Não é assim: pra baixo todo santo ajuda. Aqui, na Serra, na descida, todo zelo é cuidado.

É o motorista do nosso jipe quem diz.

Parece-me um senhor sensato.

Preza a segurança.

Tem experiência no trajeto e um jeito diferente de falar.

– Pela manhã, todos os caminhos vêm. À tardinha, todos os caminhos vão… Assim é a vida na Serra da Bocaina.

Olhares ressabiados entre nós, os forasteiros.

Olhares e apreensões, porém, logo serenados por um dos rapazes da Pousada:

– Vive fraseando. Por isso, o chamam de Filósofo. Mas o nome dele é Felisberto.

Felisberto. Tive um amigo na infância com este nome.

Nós o chamávamos de Betão.

Ando cheio das recordações…

Deve ser a idade, o lugar, sei não.

Sei que esse mesmo funcionário foi quem me resgatou no mirante para que eu me enturmasse de novo.

– É a hora boa. Vamos escolher o passeio, doutor?

Tem essa agora! – penso cá comigo enquanto o jovem listava o cardápio de atrações: andar a cavalo, visitar a Cachoeira de São Izidro, caminhada até a Casa de Pedra, trilha de bike até o Lajeado, caminhada até o Pico do Gavião, conhecer o morro com a rampa para salto de asa delta, outra caminhada, outra cachoeira, outra…

Fiz um sinal com a mão para que cessasse a lista.

O rapaz entendeu que eu já havia escolhido, mas tentou me orientar. Usou o bordão dos médicos que habitualmente me atendem:

– Nos conformes da sua idade, eu aconselharia…

Não deixei que terminasse:

– Ainda tem café e bolo – perguntei

– Creio que sim, doutor.

Não sou doutor, explico. E concluo:

– Então, anote aí, santo. Vou ficar por aqui. Beleza?

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1 Response
  • Jorge Tarquini
    8, abril, 2020

    Ah, as paixões escolares e as viagens inesquecíveis…

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