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O que o tempo leva… (3)

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UMA NOVELA BLOGUEIRA(Foto: Wilson Luque)

O guri franziu a testa.

Desaprova total minha resistência de maravilhar-me com as belezas bocaneiras (ou bocainenses?):

– Doutor (ele insiste em me outorgar a honra e o mérito de tal titulação que não me cabe e não tenho), fique tranquilo. O grau de dificuldade é baixo, zero, eu lhe garanto. Vai ver paisagens inesquecíveis, eu lhe garanto.

Garantias à parte, é minha vez de franzir o cenho.

– Vou ficar – disse e saí.

O friozinho está propício a outro gole de café.

Desconsolado, ele saiu atrás da coordenadora dos tais passeios que, vi de relance, por sua vez, foi atrás da Sueli, a nossa guia.

Segundos depois, já esparramado num banco de madeira ao sol, ouço a voz da Sueli:

– Ô Italiano, veio para conhecer a Bocaina e agora diz que vai empacar por aqui, parado. O que é que te deu? Está se sentindo bem?

– Muito. Otimamente bem. Tão bem que prefiro desfrutar do bem-bom do lugar. Sol manso, café quente, bolo saboroso, um belo horizonte ao redor. Tranquilo, tranquilo. Algum problema?

– Arre! Todos e nenhum. Vou ver o que faço.

E lá se vai a Sueli, maneando a cabeça, atrás de outros componentes do nosso grupo menos arrivistas.

De turrão, turrão, desconfio, só eu mesmo.

Um esclarecimento.

Sou um italiano de araque, made in Cambuci, bairro operário de São Paulo, Capital.

Meus avós – todos – eram oriundi.

Meu avô paterno, que não conheci, mas herdei o nome e o sobrenome, era calabrês.

Diziam, na família, que até pareço com ele. Se não fisicamente, ao menos no jeitão de ser. Falo alto, gesticulo, tenho alternância de humores e, principalmente, quando entro num bate-boca, dizem ainda hoje, sou casca grossa.

“Calabrês, o diabo que te fez”.

Juro que não me entendo assim.

A voz fica encorpada, agressiva, naturalmente. Sou enfático nos meus posicionamentos. Assusto alguns dos meus interlocutores.

Babar, não babo, não. Mas, pareço estar fora de controle, alegam meus opositores.

Não é proposital, repito  – e volto a jurar.

Enfim…

Torço pelo Palmeiras, óbvio.

Acontece que, nesses dias de andanças pelo Vale do Paraíba, topei com hordas de corintianos e flamenguistas (ô raça!).

Eles se juntaram para tentar me zoar com aquela musiquinha estúpida:

“Palmeiras não tem Copinha

Palmeiras não tem Mundial”

Tentaram.

Revidei na oratória.

Impus meus argumentos de forma veemente, digamos assim.

Armou-se aquele salseiro.

Ganhei notoriedade, primeiro, como Carcamano, depois como Dom Corleone,  mas o apelido que pegou mesmo foi Italiano.

Aposto que ninguém sabe meu verdadeiro nome por aqui.

Sinceramente, não importa. Até prefiro.

Por falar, em preferência:

– Sueli, Sueli, faz um favor: arranja um café pra mim. Se vier com pedaço de bolo, melhor ainda.

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