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Os invasores

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Fotomontagem: Cláudio Micheli

O repórter-fotográfico Cláudio Micheli chegou um trapo à velha redação de piso assoalhado e grandes janelões para a rua Bom Pastor.

Barba por fazer, cabelos em desalinho, trazia o olhar desconfiado para tudo e para todos.

Foi logo dizendo que não estava em condições de trabalhar.

Solidário, alguém perguntou se havia  algum problema, alguma dor.

De qualquer forma se não estivesse bem, chamaríamos o Waltão (outro fotógrafo) para substituí-lo.

Que ele, então, voltasse para casa ou procurasse um médico.

– Com saúde, não se brinca, alertou o Escova, o repórter que naquele dia faria dupla com o Clamic.

Clamic…

Era assim que o chamávamos.

Escova era daqueles repórteres da antiga. Gostava de estar na rua entrevistando pessoas, correndo atrás da notícia, dos fatos. Por isso, não queria ninguém reclamando de dor ao seu lado.

Outros tempos, hein, rapaziada do digital!

Voltemos àquele tarde que se perdeu no tempo…

A resposta do Clamic nos surpreendeu.

Não iria a lugar algum. Menos ainda, voltaria para a casa onde morava.

Não queria ficar sozinho.

Ninguém entendeu, mas sequer chegamos a perguntar.

Ele mesmo foi logo se explicando.

Sentia-se bem de saúde, mas estava aturdido.

Como assim?

Aturdido?

Que história é essa, Clamic?

(O vozerio foi geral.)

Eis o motivo:

Na madrugada anterior, sem sono, o figura ligou a TV e, quase sem querer, assistiu a um filme de ficção científica em que a Terra é invadida por seres alienígenas que, pouco a pouco, tomavam o corpo dos seres humanos – e assim pretendiam se apoderar do Planeta e extinguir a raça humana.

Era um filme antigo. Em preto e branco ainda. Um roteiro super manjado, e o título: Os Invasores, se bem me lembro.

– Qual o problema, então – perguntei. – Era tão ruim assim?

– Nada disso – respondeu o Clamic. – O filme é ótimo, impressionante, tenso.

– Então…

– Então que não dormi direito, fiquei cismado de que, possivelmente, esses invasores de corpos já estejam soltos por aí. Nunca se sabe, né?

Rimos – e despachamos o Clamic e o Escova para as atribuições do dia.

Não sou lá grande fã dessas peripécias pictórias.

Tanto que nem me dei ao trabalho de procurar ver a tal produção.

Sei que existem outras tantas no gênero, mais recentes até, com efeitos especiais tenebrosos e cousa e lousa e mariposa.

Fazem um sucesso daqueles com a turminha.

Mas, para este humilde escrevinhador, bastam os monstrengos das contas a pagar que enfrento diariamente. São reais, e sem delírio.

Lembrei o Clamic e seus temores quando li o comentário da Clarice aqui no Blog:

“Tenho andado muito perplexa com o que ando ouvindo. Mais do que tristeza, estou com medo dessa “gente de bem” que quer o mal do próximo, sem entender ao certo o que andam pedindo…”

Sei não, amiga.

Sei não, gente.

Só agora, tantos e tantos anos depois, começo a ver sentido no pavor do saudoso amigo.

Temo que esses seres estranhos estejam entre nós a invadir mentes e corpos alheios. Soltos por aí.

Alguns podem, inclusive, ocupar cargos e funções importantíssimos?

Será que os alienígenas já estão no comando?

Nota do Blog:

Uma prova do talento e da criatividade do Clamic como profissional é a fotomontagem que hoje ilustra o nosso Blog. Foi feita por ele nas horinhas distraídas, entre uma reportagem e outra, no laboratório do jornal. Meados dos anos 70. Usando a velha Rolleiflex, o ampliador de imagens, papel fotográfico, a lente da câmara e o próprio olhar. Diria que foi um precursor da hoje adorada selfie…

Foram horas e horas de paciente trabalho artesanal.

Quando lhe perguntamos, como conseguiu a proeza…

Sorriu vitorioso.

– Tenho meus segredos.

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