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Os noveleiros

Hoje, no Dia do Abraço, um naco de saudades me envolveu. Imaginei por imaginar que seria um dia e tanto na velha redação assoalhada daquele jornal paulistano onde trabalhei em tempos idos e vividos…

Pura nostalgia minha, eu sei.

Mas o assunto ali não seria outro: a participação da atriz Laura Cardoso no capítulo de ontem em Duas Caras. Ela fez uma aparição de alguns minutos como mãe do tal Marconi Ferraço (Dalton Vigh) e foi magnífica. Emocionante momento que deve entrar para qualquer antologia da teledramaturgia recente.

Aliás, diria que a cena do reencontro entre mãe e filho (Laura e Dalton) aos olhos comovidos do neto (o garoto Gabriel Sequeira) compensou as bobagens todas que o autor Agnaldo Silva alinhavou nas últimas semanas, muito provavelmente em conseqüência do tal esticamento da telelágrimas. E, olhem, caríssimos, que não foram poucas: a fala oca do discurso do Evilázio (Lázaro Ramos), a crise de histeria nas ruas de Copacabana de Gioconda (Marília Pêra), os inexplicáveis monólogos existenciais da chatíssima Célia Mara (Renata Sorrah), entre outras.

Noveleiro, eu?

Não, não, meus amáveis cinco ou seis leitores. Brasileiro, como vocês e todos nós. De futebol e novela, não é preciso ser fanático ou mesmo acompanhar todos os capítulos para entender tudinho. Vacilou e lá estamos nós a dar nossos pitacos –de relevância transcendental – na escalação da seleção ou nas cenas dos próximos capítulos.

Para não deixar passar a oportunidade, registro: por mim, convocaria o grande São Marcos para os jogos da seleção e ampliaria a presença de Alzira (Flávia Alessandra) e Andréia Bijou (Débora Nascimento) na novela que deve acabar no início de junho. Depois, só Deus e os autores de novelas sabem quando as verei de novo.

Enfim…

Deus sabe o que faz. Os autores, eu diria, nem tanto.

Seria mais ou menos assim que, nos idos daquela redação assoalhada, o Nasci introduziria a temática do dia ao noveleiro-mor Ismael Fernandes, dono da coluna – a de TV – mais lida do jornal.

Vou apresenta-los.

Nasci era o grande mestre; mais velho que nós uma dezena de anos e uma notável experiência como produtor da TV Record em seus áureos tempos. O Isma era um apaixonado por novelas. Só apaixonado, não. Sabia tudo. Tanto que escreveu uma obra ainda hoje fundamental para entender o gênero, o livro Memórias a Telenovela Brasileira, que teve quatro reedições.

Não era raro que ambos entrassem em rota de colisão nas conversas. Mesmo concordando com o Ismael, o Nasci discordava só para dar pala e assunto e assim agitar o dia-a-dia em frente às nossas Olivettis.

— Falem o que quiserem. Ideologias à parte, as novelas globais são imbatíveis.

O Ismael tratava de sair em defesa das outras emissoras.

— Mas, esse monopólio é muito ruim para todos. Quem não está na Globo fica à mingua.

— Quem tem talento está lá, provocava o Nasci que sabia da amizade do Isma com diversos atores paulistanos, ligados ao SBT e eventualmente à Band e à Record.

— Mas, Nasci, veja Fagundes, Tony Ramos, Lima Duarte, Eva Vilma, Luiz Gustavo, Denis Carvalho e tantos outros nomes de peso saíram da extinta TV Tupi.

E por aí continuava a discussão expediente afora. Quando não, prosseguia naquele boteco que não mais existe entre a rua Bom Pastor e a rua Greenfeld. Ali, onde o Sacomã torcia o rabo e o ônibus Fábrica-Pinheiros fazia curva rangendo os ferros e bufando o motor, como a dizer que o tempo não pára no porto, não apita na curva, não espera ninguém…

Antes de terminar, registro a saudade dos amigos que se foram e me permito fazer uma observação. Os dois elogiariam a atuação de Laura Cardoso, a quem defendiam como uma das grandes atrizes da TV brasileira. Só que o Nasci, aposto, diria:

— Mas, a produção da Globo foi perfeita. Valorizou ainda mais a interpretação.

E o Ismael retrucaria:

— Não, concordo. Mesmo diante de uma ‘tapadeira’ Laura Cardoso é magnífica.

E assim a polêmica continuava até que outro assunto entrasse em pauta. Mas, essa é uma outra história que fica para uma próxima vez…

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