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Outono de 1988

Manhã de outono de 1988. Uma das pequenas ruas arborizadas nos arredores do meu querido Parque da Aclimação. Lá estava eu, com caneta e bloco de anotações, para fazer uma reportagem sobre a obra do artista plástico, Gino Bruno, que falecera dez anos antes. Naquela ocasião, um grupo de amigos queria reverenciar sua memória com a realização de uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna.

Foi a primeira vez que visitei o ateliê de um pintor – no caso, o genro de Bruno, Sílvio Alves, um dos idealizadores da mostra. Fiquei encantado com o festival de cores que banhavam o lugar de amplas janelas a permitir a plena invasão da luz solar.

Lembro da ênfase que Alves deu à necessidade de que o País tinha (e tem) de preservar a sua identidade cultural, a partir de seus expoentes artísticos. “Se em vida o grande público mal os conhece (os artistas), imagine, então, depois que morrem” – ponderou. Conclui que a reportagem precisaria ser a mais esclarecedora possível – didática até – e foi com este propósito que a escrevi para a Revista Afinal, onde foi publicada em 14 de junho de 1988.

É este texto que recuperei e, a partir de hoje, disponibilizo aqui.

RETROSPECTIVA VALIOSA

* O MASP vai expor, pela primeira vez, a obra de Gino Bruno

Na última semana de vida, o pintor Gino Bruno acalentou a idéia de ver ma retrospectiva de suas obras no Museu de Arte de São Paulo. Como se pressentisse a morte, Bruno procurou o amigo Pietro Maria Bardi, que se mostrou vivamente interessado em realizar a exposição. Os detalhes foram todos acertados, mas dias depois (8 de setembro de 1977), o pintor morreu de enfarte aos 78 anos. “O sonho, no entanto, permaneceu vivo em cada um de seus discípulos, em cada um de seus admiradores” – ressalta Sílvio Alves, pintor, aluno e genro de Gino Bruno.

Sílvio é um dos principais coordenadores do movimento de artistas plásticos que está organizando, para o segundo semestre deste ano, a tão almejada retrospectiva no MASP.

“Estamos recolhendo as diversas obras de Gino Bruno nos museus e acervos particulares. Queremos reunir o maior número possível de telas para traçar um perfeito painel da obra impressionista de Gino Bruno que, particularmente, considero um dos expoentes de nossa pintura, ao lado de Cândido Portinari e Lazar Segall”, explica Sílvio em seu ateliê próximo ao Parque da Aclimação.

Ele entusiasma-se ao comentar a obra do mestre, um artista reconhecido e premiado no Brasil e no Exterior.

“Meu sogro possuía um traço pessoal inconfundível”, explica Sílvio. “Sempre foi bastante elogiado e, mesmo participando de movimentos renovadores como a Semana de Arte de 22, jamais se deixou levar pelos modismos. Tinha uma personalidade marcante – traço, aliás, que passou para sua obra”.

Sílvio lembra um texto do poeta Menotti Del Picchia, de 1947, verdadeira elegia ao trabalho de Gino Bruno: “Enquanto os demais expõem, polemizam, discutem, negam-se, elogiam-se, xingam-se – este pintor pinta. Pinta com fervor, com exasperação, com absorção total do seu tempo”.

Em outra crônica, não menos elogiosa, Del Picchia compara a obra de Gino Bruno à de Cândido Portinari. Diz o crítico e escritor: “Portinari é a técnica a serviço da imaginação. É a inquietação em múltiplos caminhos. Bruno é a técnica e a obstinação. A luta em profundidade (…) Portinari dá-me a idéia de um astrônomo que anseia por descobrir novas galáxias e estrelas. Gino Bruno sugere-me o químico pesquisando a essência da matéria.Um é dinâmico e condoreiro e o outro estático e lírico”.

Natural da província de Adria, na Itália, Gino Bruno veio ainda criança para o Brasil, junto com os pais. Sempre viveu em São Paulo, onde estudou no Liceu de Artes e Ofícios. Foi contemporâneo de pintores como Anita Malfati, Paulo Rossi Ozir, Tarsila Amaral, que agitaram a Semana de Arte Moderna em fevereiro de 1922.

“O Brasil é um país sem memória”, desabafa Sílvio Alves. “Em termos de artes visuais, então, nem se fala. Sequer existe um acervo que assegure para a posteridade o notável conjunto de obras de artistas nacionais. Se em vida o grande público mal os conhece, imagine, então, depois que morrem”.

Por isso, Sílvio e um grupo de amigos – todos apaixonados pela pintura – empenham-se para divulgar a obra de Gino Bruno, “responsável por uma valiosa, inestimável contribuição à cultura brasileira”.

(* No blog, tem foto.)

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