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Romeu sem Julieta

Que ambos me desculpem a indiscrição!

Mas, estava na praça de alimentação de um shopping, na mesa ao lado da que eles dividiam, entre sorrisos e afagos e uma conversa que fui ‘obrigado’ a ouvir e me soou atravessada por um-não-sei-quê de veneno.

— Então, disse ele, o que suas amigas acharam de mim.

— Ah, disseram que você é “de boa”.

O rapaz pareceu ser mais conversador; ao menos, no falar.

— De boa?

— È, mô, “de boa”. Simpaticão, entendeu?

— Simpaticão? Será que elas não quiseram dizer: simpático mais cão?

— Hahahahaha! Não havia pensado, mas pode ser, sim.

— Como, pode ser? É isso o que você pensa?

— Não fique grilado…

— Grilado? Agora está me chamando de inseto…

— Não, fofo. Claro que não. Adoro você…

— Fofo, por quê? Estou gordo é isso… é isso…

Resolvi pegar minha bandeja – aquela mesma que o Fantástico detonou semanas atrás, quem viu a matéria? – e sair de fininho. Fiquei pensando: tem dia que de noite é fogo. Por mais que você tente consertar, só piora a situação…

A historinha não me saiu da cabeça.

(Como podem ver ando sem grandes preocupações; melhor assim.)

Enquanto voltava para o trabalho, fui mudando de idéia. Acho que a moça estava mesmo sacaneando o rapaz. Mesmo que não tivesse consciência disso. Às vezes, por mais que tentemos disfarçar, é incontrolável a manifestação dos nossos sentimentos, mesmo que subliminarmente.

Essas coisas acontecem mesmo…

Lembro que, em uma determinada ocasião, o Romeu voltou para a redação chispando fogo pelo nariz. Ele era repórter-fotográfico e acompanhou um dos repórteres, o Lira, a uma reportagem em um cursinho pré-vestibular. Não era uma matéria-paga, um informe publicitário. Mas, tinha lá outros interesses que não o jornalístico.

Vou lhes contar…

O Romeu estava de romance com Julieta, recepcionista, secretária e irmã do dono do tal cursinho. De tanto rosnar no ouvido do editor, conseguiu uma reportagem para falar de uma promoção de bolsas de estudos. Coisa pouca, é verdade; mas, suficiente para fazer uma presepada para a nova conquista.

Acontece que Romeu era casado e, no dizer das moçoilas do jornal, safado. Lira, por sua vez, ostentava junto aos mais chegados o merecido apelido de “Fofoca” por dizer o que não devia em hora e locais inadequados.

Por isso, Romeu tentou mudar o repórter com a chefia. Mas, em vão. O editor mal-humorado foi definitivo no parecer:

— É pegar ou largar.

Sem alternativa, o fotógrafo foi logo avisando:

— Se falar que sou casado para a moça, te cubro de porrada. Entendeu?

Lira desconversou. Disse que era maledicência da rapaziada – e que não era disso. Estava ali para trabalhar e não lhe interessava o que cada um faz da própria vida.

E foi exatamente o que aconteceu durante as quase duas horas que permaneceram no interior do cursinho. Lira se comportou como sobriedade e não disse um pio a mais do que o necessário para a tal reportagem.

Romeu ficou tão feliz, tão feliz que sequer percebeu o vacilo. Na hora de ir embora, Julieta se ofereceu para acompanhá-los até o estacionamento – o local onde se deu o desencanto.

Lira, discreto que só ele, entrou na viatura do jornal e lá ficou à espera de Romeu. A alguns metros de distância, os pombinhos se despediam e marcavam o próximo encontro – que, aliás, nunca aconteceu.

Por quê?

Imaginem a cena.

Como o fotógrafo estivesse demorando mais do que o combinado, Lira não teve dúvidas. Abaixou o vidro do carro e gritou:

— Romeu, meu amigo, apresse o passo que ainda temos que passar na casa da tua sogra, lembra? É aniversário do Romeuzinho e a festinha vai ser lá, lembra?

Lira, o Fofoca, jurou que foi sem querer. Mas, os dois nunca mais se falaram — aliás, os três…

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