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Sem mistérios…

Olhava a moça a jogar o vasto cabelo de um lado para o outro, de minuto a minuto.

O que será que ela está pensando?

Será tique nervoso?

Só a conhecia de vista; vez ou outra, a cumprimentava, mais por educação do que qualquer outro interesse.

Da parte dela, o mesmo distanciamento.

Trabalhavam no mesmo setor, mas em áreas distintas.

Não entendeu o porquê hoje ela lhe chamara a atenção acima do habitual.

Ó doce mistério da vida!

II.

Era bonita? – há de me perguntar o saliente leitor. E eu lhe direi que não era lá de arrebentar corações. Tinha lá dessas belezas que se camuflam atrás de um par de óculos. De uma roupa sóbria, de um falar baixo, discreto. Mas, hoje, a moçoila estava atacada… Viera conversar com outra funcionária – conversa que Leocádio não podia ouvir.

Por um instante, espichou o pescoço para além da tela do computador e a encontrou, ali, a uns 10 ou 12 metros de distância a inquietar-se com o penteado.

Leocádio, o escriturário padrão, parecia enfeitiçado com os meneios daqueles cabelos lisos. Fixou ainda mais os olhos na moça que sequer percebeu que estava sendo vigiada e ele próprio, o Léo dos relatórios precisos e elaborados, o solitário sem emoções.

Já embicava os quarenta e tantos, e sua vida não tinha segredos, nem desvãos. Mas, hoje, sei lá, hoje ele se achou estranho…

III.

E se pôs a viajar em pensamentos à toa. Viajar sem sair do lugar.

Não conseguia lembrar o nome da figura. Já escutara, aqui e ali, mas, ô cabeça…

Como será a vida dela fora do trabalho?

Será que mora sozinha?

Será que namora?

Nunca soube nada a seu respeito.

Talvez era se pareça um pouco comigo?

Será que é feliz?

Quem seria feliz ali, entre os iguais, naquela repartição?

IV.

Ops…

Estava fugindo do misterioso tema que a visão lhe propiciou.

Quando acordou da viagem pra dentro de si, a moça não estava mais lá.

Foi embora, hora do almoço.

Os colegas continuavam a lida indiferente ao que ele estava pensando… e o que ele pensava?

Que os relatórios estão cada dia mais chatos.

Que não tem mais nenhuma graça em redigi-los.

Que as pessoas ao redor não parecem nada animadas.

Que devem estar tão entediadas quanto ele. Inclusive, ela, a moça que se fora e que, a partir daquele momento, se transformara num belo enigma.

V.

Pensou no menino do Acre que transformou o quarto, da casa onde morava com os pais e uma irmã, num grande livro com mensagens criptografadas. Depois disso caiu no mundo. Desapareceu como por magia.

Gostaria, um desejo íntimo não revelado a ninguém, de fazer o mesmo: fugir dali, sem deixar vestígio.

Reconheceu, porém, que não teria paciência (nem vontade) para forrar as paredes com um texto amalucado em uma linguagem que ele próprio inventaria e que ninguém conseguiria entender. Daria um trabalho danado.

Preferiu copiar a moça. Saiu a passos lentos, de fininho. Arrumou os poucos cabelos que lhe restaram, e foi almoçar.

Era mesmo um homem sem segredos. Mas, tinha fome.

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