Foto: reprodução do X
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Lá dos arredores de Paris, o amigo Escova lamenta, o fim da Rádio Eldorado FM (103,7 MHz), conforme foi anunciado, dia desses, pelo Grupo Estadão:
“Deixou sua marca na história do rádio brasileiro”.
Foram quase 70 anos de existência em defesa da cultura, reforço também em mensagem pelo WhatSapp.
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Confiro a notícia no UOL:
As transmissões se encerram no dia 15 de maio, com o fim da parceria com Fundação Brasil 2000.
Os motivos são aqueles por todos imaginados, naturalmente já imaginados.
Os tempos são outros.
A decisão tem como objetivo “um reposicionamento para o ambiente digital”, com alguns programas migrando para plataformas diversas.
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Meu caro e bom amigo Escova, vou lhe dizer a impressão que tenho.
Permita-me o desabafo.
Se os tresloucados que hoje estão no Poder das grandes potencias não explodirem o Planeta em cacos com palavrórios, estupidez e bombas, creia amigo, esse Nosso Mundão vai se transformar num imenso e infinito podcast em que todos têm muito a dizer e ninguém faz questão de ouvir.
A nova Babel de verdades pessoais e absolutas.
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Enfim…
Voltemos ao assunto do dia.
Fui um ouvinte discreto da Eldorado em tempos idos.
Gostava da programação musical, de requinte e estilo. Quase sempre a ouvia no rádio do carro, entre idas e vindas ao trabalho.
No entanto, o que mais me emociona é a lembrança de outra faceta da emissora: o momento em que se criou o selo Eldorado para lançamento de elepês verdadeiramente históricos, em diversos segmentos da nossa música popular. Meu destaque para o Nogueira e sua vasta cabeleira grisalha. Era uma espécie de ‘agitador cultural’ da empresa e capitaneou o resgate de grandes e (pouco conhecidos) nomes do cancioneiro brazuca.
Dá pra dizer que a Eldorado virou um point cultural.
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Meados dos anos 70 e início da década seguinte.
Na sede da emissora, ali nas imediações da rua Avanhandava, ao lado da Redação de O Estado de S.Paulo, pude entrevistar Clementina de Jesus, Cartola, Nélson Cavaquinho, Guilherme de Brito (autor de um dos mais belos versos da MPB: “tire o seu sorriso do caminho/que eu quero passar com a minha dor”), Adoniran Barbosa, pianista e arranjador Wagner Tiso (imprescindível ao Clube da Esquina), entre outros tantos e do mesmo gabarito como o sambista paulistano Geraldo Filme.
Cada encontro era uma verdadeira lição de vida e sabedoria.
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Filme, por exemplo, falou aos repórteres sobre a origem do samba-batuque paulista entre os escravos, enquanto trabalhavam na lavoura em Pirapora.
A cantoria dos negros embalava o árduo plantar e colher.
“Por isso, era mais lamento do que celebração”.
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Tá certo, amigo Escova…
A Eldorado deixou seu indelével registro na história do rádio brasileiro, mas sobretudo e principalmente cravou marcas no sentir e viver de muitos de nós. Aqueles que lá, um dia, no tempo em que o sonhar era possível, imaginávamos a proeza de um mundo em que a arte, a cultura e a sensibilidade ditassem horizontes, rumos e caminhos.
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TRILHA SONORA
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