Foto: Roberto Parizotto/Eleições de 2022/Arquivo
- a farsa
Às 23h07 de 17 de abril de 2016.
O deputado Bruno Araújo (PSDB-PE) deu o 342° voto favorável ao processo de impeachment de Dilma Rousseff.
O plenário da Câmara Federal explodiu em alaridos e comemorações.
Quebrara-se a barreira constitucional.
Parlamentares estranhamente eufóricos aos gritos de “Brasil! Brasil! Brasil!”. Bandeiras e flâmulas erguidas, celulares no alto, abraços, selfies, cartazes de “Tchau, querida” e o inevitável coralzinho musicado:
“Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”.
Em outro canto, do outro lado, ouviam-se vaias e palavras:
“Golpistas!”
“Canalhas!”.
…
2. a tragédia anunciada
Estava fora do país.
Viajei com um mau pressentimento.
Assisti pela televisão de um restaurante, o trecho decisivo da patacoada.
Senti o baque – boa coisa não teríamos pela frente.
Mesmo assim agradeci a coincidência.
Doeu um tantinho menos, creio.
Voltei para o hotel com a sensação de que a viola da nossa tenra democracia andava em cacos.
Que os tempos eram outros – e marcado pelo retrocesso.
Naquele momento, não imaginei que o Brasil era apenas uma peça do enorme quebra-cabeça do novo mundo neste século.
…
3. Escova e a profecia
Assim que voltei ao Brasil, dias depois, encontro o amigo Escova para nossas caminhadas filosóficas_existenciais pelos quarteirões e botecos do Sacomã.
Era um hábito nosso a lembrar os bons e saudosos amigos nas manhãs de sábado.
Escova está um tanto mais casmurro do que de costume.
Não espera para me sapecar, direto e reto, a novidade.
Está de malas prontas. Vai morar com a filha e as netas nos arredores de Paris.
Quem pode pode.
“Poder não posso” – diz ele. Mas, não há alternativa.
Velho companheiro dos primeiros tempos da Velha Redação, repórter como eu – ou melhor, repórter bem melhor do que eu – está convicto em seu desalento.
Crava a célebre frase que me é profeticamente inesquecível:
“Aqui, vai ser a barbárie.”
…
4. o dito e o feito
Triste prognóstico que se cumpriu – e ainda há quem queira revivê-lo.
Ouvi de um emérito professor de Relações Internacionais (perdão, mas não lhe guardei o nome, tamanho o meu espanto diante da frase) que Donald Trump não enganou ninguém. O que ele disse ao eleitorado dos Estados Unidos ele está cumprindo à risca:
“Dá para entender que se identificam e pensam como ele”.
Imagino que, por aqui, quem apoia seus sabujos vai no mesmo e insano embalo.
Aliás, e a propósito, já tivemos mostras contundentes do abismo autoritário que pretendiam nos lançar.
Atualizo a profecia do Escova:
É a barbárie, aqui e ali!
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5. Conclusão (pessoal e intransferível)
Há que se resistir.
Para construção de um Brasil contemporâneo, solidário. De todos os brasileiros.
Vale, como sempre, ressaltar o atalho e a esperança do grande Paulo Freire:
“Somente os oprimidos, libertando-se, podem libertar os opressores. Enquanto classe que oprime, nem libertam, nem se libertam”.
…
TRILHA SONORA
“E que as crianças cantem livres sobre os muros / e ensinem sonho ao que não pode amar sem dor / e que o passado abra os presentes pro futuro / que não dormiu e preparou o amanhecer”


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