Foto: Raul Seixas/Divulgação
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Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar
Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou…
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Coisas da vida.
Um carro para ao lado do meu em um dos semáforos da avenida.
Espanto-me com a trilha sonora.
Ouço a moça desconhecida – entre 30 e 40 anos e sozinha – cantarolar junto os versos da canção que ouve no rádio do carro.
Questão de minuto e meio, não mais.
Há um brevíssimo rebuliço em mim.
Como é possível?
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Abre o sinal verde no farol – e lá se vai a cantante para o lado da rotatória que não é o meu.
Sigo por outro caminho, mas cá comigo fico a ruminar os versos Paulo Coelho, o parceiro de Raulzito.
A partir deles, revejo – perdoem o tom nostálgico – um pouco (ou muito) da minha história, marcada por essas e outras tantas canções.
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Raulzito, Raulzito…
Raulzito é um caso à parte
Desconfio que em junho (dia 28) Raul Santos Seixa completaria 81 anos (confiram aí).
Vale antecipar a homenagem.
Lembro a participação primeira no Festival Internacional da Canção de 1971.
Apresentou-se à la Elvis Presley a defender o rock_baião Let Me Sing.
Que figura!
Impressionante.
Assim como surpreendente se fez a Sociedade Alternativa, a tresloucada utopia existencial e política que ele e o parceiro Paulo Coelho engendraram em um dos momentos mais violentos da ditadura militar, o início dos anos 70.
Preciso registrar minha admiração – eu, então, um jovem de 20 e poucos anos.
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Permitam-me mais.
Ao longo de anos e anos, como jornalista que cobria a área de música popular brasileira, entrevistei zilhões de cantores, compositores, músicos e afins. Raul, inclusive.
Lembro esses dias com muita saudade e uma ponta de doce nostalgia.
Dos tantos e tamanhos que pude entrevistar, destaco sempre as viagens reflexivas de Gil e a autenticidade de Raulzito, um artista que foi coerente com a obra que criou e o personagem que encarnou; o roqueiro, filósofo e malucobeleza que ocupa, ainda hoje (olha a moçoila cantante de hoje) um lugar único, personalíssimo no panteão dos grandes nomes da nossa cultura.
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Ele morreu em 1989.
Aquele foi um dia triste.
O encontro de hoje no farol, involuntário e determinado pelo acaso, é o contraponto.
A certeza que mitos e lendas se fazem eternos.
Sobrevivem em mim, em você, na moça do farol e especialmente sempre naquele alguém que, na calada da noite, algo embriagado e por algum motivo sensível além da conta, pedirá em tom dolente, de quase prece, ao músico desconhecido que num palco qualquer se apresenta:
“Toca Raul, toca Raul…”
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TRILHA SONORA
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