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Da janela lateral…

Foto: São Bernardo do Campo/Arquivo Pessoal

“De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar”

No tempo em que existiam jornais e jornalistas, dizia-se que era fundamental a um bom cronista ter sempre uma janela ao seu dispor para tocar o texto do dia caso lhe faltassem assunto e inspiração.

Sabe-se lá quantas vezes nosso melhor – e mais lírico – cronista, Rubem Braga, usou desse recurso para tantas de suas deliciosas narrativas.

Lembro uma crônica – só para exemplificar – que Braga, sem sair do seu posto de observação e à distância (na varanda do apartamento no Leblon), descreve as aventuras de um rapaz que nada vigorosamente de um ponto a outro no mar do Rio de Janeiro. A cada braçada do moço, vamos tomamos ciência do enorme desafio existencial que enfrenta em meio às águas numa delicada analogia do jornalista ao cotidiano de cada um.

Chama-se Homem ao Mar – e vale a leitura.

Pois então, meus caros, raros e preclaros.

Falta-me vontade para encarar os assuntos do dia.

Causam-me enorme desalento.

Ops.

Cabe a ressalva.

Não tenho tamanho dom, reconheço.

Não precisam me lembrar o que sei de sobejo: estou a anos_luz do inesquecível Rubem Braga, mas disponho de uma janela lateral, aqui, à minha esquerda que ilumina o escritório e através da qual posso ver um naco da ensolarada silhueta de São Bernardo do Campo, cidade onde moro.

Vale ressaltar: Bernô City anda bem distante daquela cidade contemporânea e progressista que, na virada dos anos 80, tomou o Brasil de surpresa, com as históricas greves dos metalúrgicos do ABC, base e alicerces para a redemocratização do país.

Foi o período em que me mudei pra cá.

Havia naqueles idos o sonho da construção de um Brasil para todos os brasileiros.

Conjugávamos, sem divisionismos, o verbo Esperançar.

“Vida que segue…”

Conforto-me com a frase consagrada por outra referência do jornalismo brasileiro, João Saldanha, que é tão popular ainda hoje em tempos de produtores de conteúdos, influenciadores, youtubers, caçadores de cliques, cassandras, groupies e afins.

TRILHA SONORA

Uma cena tocante. O encontro de Chico Buarque com músicos de rua em Cuba.

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