Foto Jô Rabelo
…
4 de dezembro de 2010 – Uma lembrança que o OneDrive me envia e, sem querer querendo, me faz sussurrar para mim mesmo– e ninguém mais ouvir– os versos definitivos daquela canção maravilhosa que quase ninguém conhece:
“O Tempo não para no porto,
não apita na curva,
não espera ninguém”.
…
Na imagem, apareço, todo pimpão, ladeado por amigos que integravam a derradeira safra dos bons tempos da Velha Redação, palco e cenário de tantas histórias e estripulias vividas – e, diria, bem vividas, ao longo de quase 30 anos de jornada.
Acreditam?
Cheguei ao jornal garotão cabeludo, bolsa a tiracolo de couro cru e tal e cousa e lousa. Tinha 23 anos, o hiponga. Março de 1974. Fui contratado, carteira assinada e tudo, como redator_estagiário (existia tal função) e saí em junho ou julho de 2003, já um senhorzinho, como diretor de redação.
Não houve choro, nem velas, menos ainda fita amarela, gravada com o nome dela – e, sim, e apenas a demanda pela indenização acordada, depois de alguns rodeios, pelas partes diante de um Juiz num tribunal trabalhista nas imediações da rua da Mooca.
Olaia.
Assim é a vida…
Assim são os amores.
…
Um dia a gente chega, n’outro vai embora.
Engraçada a nossa memória. Lembro bem quando cheguei à sede do jornal, ainda na rua Lino Coutinho, Lembro o primeiro texto. A pauta: 8 de março. Dia da Mulher. Entrevistei uma moça, cobradora de ônibus e desquitada. Só a palavra ‘desquitada’ causou algum diz que diz na redação. No fim, a reportagem saiu numa boa – e ganhei até uns elogios do Marques, o mestre e guru da turma.
Por outra, lhes digo: não me recordo nada, nadinha, de como se deu a minha saída. Qual foi o último texto publicado, se escrevi pensando que seria o último.
Vá entender!
…
Tento lhes dar uma razoável explicação. Talvez fosse porque minha cabeça já andava a mil pelo campus da universidade onde comecei a trabalhar como professor de jornalismo e assim a vida seguiu quase que por encanto.
Inevitáveis as lembranças que a imagem me causou e hoje me faz escrever sobre tais devaneios.
Sou mesmo um grande e incorrigível nostálgico.
…
Voltemos ao momento da foto.
Anos depois, cada qual em sua rota, estávamos ali reunidos, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos, a celebrar o lançamento do meu segundo livro “Meus Caros Amigos – Crônicas sobre jornalistas, boêmios e paixões”.
Foi bacana, gosto de rememorar.
Mas, quase havia esquecido, não fosse o OneDrive.
…
Sobre o livro, trata-se de uma coletânea de crônicas e contos que escrevi inspirado na epopeia que ali, na redação, de um jeito ou outro se viveu.
Faço melhor.
Dou um recorta_e_cola na apresentação que escrevi e consta na página 7 da referida obra:
“Este livro é um livro-homenagem…
ao Naci,
ao Marques,
ao Zé Jofre,
ao AC,
ao Clamic,
ao Ismael,
ao Made,
amigos que já partiram, e com os quais pude compartilhar tempos inesquecíveis, de sonhos e utopia. É também um modesto tributo aos meus 35 anos de jornalismo e a outros camaradas da mesma estirpe, com os quais pude conviver nesse tempo de estrada.
Uma boa parcela desses e daqueles aparece como personagens das histórias que o livro reúne, tendo como palco a velha redação de piso assoalhado ou o Sujinho, onde nos encontrávamos antes, durante ou depois do expediente.
Um adendo.
Nem todos surgem com os nomes verdadeiros. Por motivos óbvios, e também porque são meus amigos e deduragem, entre nós, é vacilo que nunca se perdoou”.
…
Gente, naquele memorável sábado, junto aos amigos e familiares, eu completei 60 anos de vida.
Foi mesmo uma celebração. Um viva aos bons tempos.
Engana-se, porém, quem espera que agora eu diga: “parece que foi ontem”.
Não digo e lhe dou um bom motivo.
Ontem, acreditem, senhores e senhoras de pouca fé, eu completei 75 anos.
…
É, meus caros e preclaros, tenho tempo de estrada suficiente para lhes dizer:
“O tempo é areia que escapa até entre os dedos do amor…”
Sigamos, pois, queridos e queridas, sem perder a poesia e a ternura.
Obrigado por estar aqui…
…
TRILHA SONORA
…



Veronica
6, dezembro, 2025Lembro disso!