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70 anos da TV no Brasil (crônicas e memórias)

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Foto/Reprodução: site Outrolado…

(1) – Estripulias do garoto Tchinim diante da TV 

Foi mesmo um acontecimento quando o primeiro aparelho de TV chegou à humilde casa da rua Muniz de Souza 420.

Era um mastodôntico objeto que exibia a marca Invictus em pequenas letras bronzeadas na parte inferior, tela com 21 polegadas, profundidade infinita para acolher válvulas e um tubo ‘que gerava as imagens’ no dizer do pai – e, de resto, mal e mal se equilibrava em quatro roliços pés ‘palitos’.

Imagine um taco de bilhar, cortado pela metade e enroscado na base da geringonça lúdica.

Pois então…

Eu devia ter cinco ou seis anos – e achei aquela novidade bem estranha.

Mesmo com o alvoroço da mãe, das irmãs e de toda a vizinhança, eu fiquei à certa distância da Coisa.

Primeiro, porque a mãe não deixava:

“Pode cair em cima de você e lhe matar”.

(Dona Yolanda era assim mesmo, dramática que só).

Segundo, um motivo inquisidor:

Nunca entendi como aquelas pessoas diminuíram de tamanho para caber no interior daquela enorme caixa. Mistério!!!

Na minha ingenuidade, várias vezes me imaginei enfiado dentro do ‘monstro’ a desvendar os bastidores de como tudo aquilo acontece.

Qual era o truque para o Roy Rogers e o lindo cavalo Tiger sair a perseguir bandidos sempre no mesmo dia da semana e no mesmo horário?

Como aquele bando de cantores e músicos se reúne ali naqueles confins para celebrar um tal de Clube dos Artistas?

E, sobretudo e principalmente, como a Lígia, a filha do dentista Dr. Carlos, a menina mais bonita da rua, aparecia quase todos os domingos em um palco, vestida de bailarina a dar piruetas e saltos, no programa chamado Grande Gincana Kibon?

Como é que pode?

– Pode, bobo, é como se tivéssemos um cinema em casa – esclareceram minhas irmãs, Rosa e Doroti.

– Você não lembra quando assistiu ao filme ‘Marcelino, Pão e Vinho”? Então, Tchinim, é quase a mesma coisa.

Só para esclarecer:

Tchinim era meu apelido de garoto.

E, se for quase, já não é a mesma coisa.

Vou lhes confessar, então.

Mesmo depois das sábias palavras das minha irmãs, houve dias em que tive ímpetos de ir pra cima da Coisa.

Sempre fui algo impulsivo.

Mas, tudo bem!

De olho nas recomendações da mãe – sempre alarmantes, lembram? -, entabulei cordiais relações com a nova dona da atenção e suspiros de toda a família, e também de alguns vizinhos.

Vou lhes confessar outra, então: ansioso, aguardava os sucessos musicais da semana.

As canções da moda e seus  intérpretes desfilavam, aos sábados, no programa Astros do Disco com o comando do apresentador-galã Randal Juliano.

Eram noites de gala, registre-se.

No palco, os homens trajavam smoking e as mulheres, vestido longo.

Em casa, tínhamos, cada um de nós, nossa torcida por esta ou aquela canção.

Eu, por exemplo, avesso ao chororô dos sambas canções e boleros, encantei-me assim que vi pela primeira vez aquele moço tímido cantar e tocar violão tão docemente como nunca vira antes alguém tocar violão e cantar.

Havia ali um mistério, um dom, um feitiço a me hipnotizar.

Chega de Saudade”, o sucesso daquele rapaz, me arrebatou de tal forma que, desde então, nunca mais pude esquecer aquele alumbramento.

E olhem  que lá se vão seis décadas…

Desde então passei a acreditar que viver sem música seria mesmo um grande equívoco.

Obrigado, João Gilberto.

É.

O pessoal tem razão.

Até que é bem legal ter um cineminha em casa!

O primeiro desenho animado que me lembre…

* Inspirada em textos originalmente publicados em 25/05/2017 e 07/09/2019

 

 

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