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A atriz, o general e nós

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Dina Sfat foi uma atriz única.

Como dizia, o Zé Jofre, na velha redação, uma atriz “na acepção do termo”.

Dedicadíssima à profissão e aos valores sociais que sugere a arte de representar.

Fez dos palcos e das telas, a missão de sua curta existência (1938/1989).

Uma mulher rara, extraordinária.

Atuante, porta voz do seu tempo.

Aos tempos da redemocratização, participou de um renomado programa de televisão, como entrevistadora. No centro da roda, o general Dilermando Monteiro, ex-comandante do II Exército, um homem mais aberto aos novos rumos que se vislumbravam para o país, mas mesmo assim um general a serviço do então governo do general-presidente João Figueiredo.

Enquanto os jornalistas presentes se enredavam em longas e difusas questões (que o militar respondia até com ares de simpatia), Dina não sabia bem o que fazia ali, como representante da classe teatral.

Permaneceu calada, olhar profundo, atento aos desvãos das respostas.

Como poderia extravasar o sentimento nacional com a sinceridade plena do que sentia naquele precioso momento?

Entendeu que nos representava. Em cena aberta, ao vivo, para milhões de brasileiros aflitos diante da telinha.

Quase ao final do programa, quando lhe deram a palavra, disse apenas uma frase:

“Eu tenho medo de generais.”

Foi um baque – o que salvou o programa do marasmo das perguntas mornas.

A repercussão se fez enorme.

Dias depois ao comentar sua participação no programa à jornalista Maria Helena Dutra, explicou:

– Não sou líder, não sou política, não posso me arvorar a falar pelo povo, quando tenho consciência de que vivo uma vida diferente, podendo me permitir muito mais do que a maioria das pessoas. Digamos que sou uma testemunha do meu tempo, uma testemunha que de repente manifesta com gestos e palavras o que as pessoas sentem. Sentir medo sozinha é angustiante – e se alguém, diante das câmeras e ao entrevistar um general, diz que tem medo, isso age como uma válvula de escape. As pessoas aliviam as tensões, refletindo melhor sobre esse medo coletivo.

Hoje, nossos medos vão além e aquém dos generais.

Preciso dar exemplos?

Olhe ao redor.

Veja o noticiário.

Reflita.

Tememos o futuro, somos complacentes – e algo parvos – diante das tragédias que nos abatem a cada nova manhã [que, aliás, parecem sempre a mesma].

Vivemos assim:

‘Tá ruim, mas está bom.’

Esperamos o grito de alerta.

Mas, e se ele não vier?

E se vier e, surdos, ouvidos tapados, fizermos questão de não ouvi-lo?

 

* Terminei de ler recentemente o livro Dina Sfat – Palmas pra que te quero, editado pela Nórdica, em 1988. De autoria da própria Dina Sfat e da jornalista Mara Caballero. 

Encontrei-o num sebo perto de casa. 

Saudades daquele Brasil, das nossas utopias e sonhos. 

Foto: Dina e as filhas (arquivo pessoal da atriz).

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