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A Copa e nós

Papo estranho para a hora do almoço.

Os amigos compartilham a mesa da Praça de Alimentação.

Mais falam do que comem.

Tema das discussões. Adivinhem?

II.

A Copa das Copas.

Não propriamente; e, sim, os arredores da Copa e suas complicações no Brasil de hoje. Sobra indignação com tudo o que se vê e ouve.

“Viram o que escreveu a neta do Havelange?”

“E o deputado conversando com o pessoal do crime organizado!”

“O aumento da alíquota do Imposto de renda só entra em vigor em 2016, pode isso?”

“Mas, esse Ronaldo é caradura, hein? Faturando horrores com a Copa e agora diz que está envergonhado!”

“Também é um escândalo atrás do outro.”

(Ninguém lembrou o mensalão, o que dá a entender que este é um assunto vencido. Apesar de que, por uma ou duas vezes, apareceu o nome de José Dirceu como razão de todos os males.)

III.

E dá-lhe conversa.

Um questiona a Petrobras.

O outro fala do Metrô.

Alguém ressalta que a saúde pública é de dar um dó.

“Viram a reportagem do Fantástico no domingo?”

Todos se horrorizam.

Mas, mudam a página.

Falam agora das greves.

Dos professores.

Dos motoristas.

Do pessoal do Tribunal Regional do Trabalho.

E outras tantas que se mobilizam.

Alguém recorda a greve da PM em Recife.

“Aquilo foi a barbárie.”

IV.

Faço parte da roda.

Derrubo meu feijão com arroz no silêncio. Só na escuta.

Concluo, sem fazer alarde: a Copa era para ser uma celebração, uma festa sem
fim. No melhor estilo do carnaval na Bahia.

Agora só causa apreensão.

Quem poderia imaginar?

V.

No rastro de toda essa discussão, enquanto a turma se encaminha para o cafezinho no balcão da padaria, lembro que, há coisa de três ou quatro anos, fui entrevistado pela Revista Brasileiros.

Não foi bem uma entrevista.

Fizeram-me apenas uma pergunta:

Você acredita no Brasil?

VI.

Minha resposta, um tanto óbvia.

“Se acredito no Brasil? Não sei. Acredito mesmo nesse brasileiro que enfrenta a vida como um desafio. Que batalha de sol a sol, sem tempo ruim. Que sonha e faz planos apesar das adversidades – que não lhe são poucas. Que encontra esperança e força no olhar do filho para a construção de um futuro mais fraterno e justo. Se ele acredita, desconfio que todos deveríamos acreditar.”

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