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A Cor da Vida (1)

Foto: Arquivo Pessoal

1 – A QUARENTENA

Que Deus nos guarde e guie!

Amém!

Nunca havia ouvido falar na tal palavra.

P_a_n_d_e_m_i_a.

Agora os adultos dizem que o mundo todo só fala nisso.

Não é lá algo muito bom pela cara assustada que fazem.

Falam em destruição em massa. Horror. Ai, meu Deus! Que nos guarde e guie!

Mas eu aqui, no meu cantinho, confesso, fiquei até um pouquinho feliz.

É feio isso, né?

Tanta tristeza, e eu feliz. Só um pouquinho, mas feliz.

Não me levem a mal, não.

*
Sou um garoto do bem, ainda agora antes de vir para cá, eu fiz a primeira comunhão na igreja Nossa Senhora da Glória. Estudo em colégio marista e rezo todos os dias. Quer dizer, dia sim, dia não. Às vezes, nem rezo.

Mas, eu me entendo com os meus santos de devoção: São Jorge, aquele soldado que mata o dragão. E Santa Bárbara, a rainha dos raios.

Nada me cobram quando vou rezar e a vela continua acesa lá na igreja perto de casa.

Nunca apareceu nenhum dragão, menos ainda se ouviu qualquer trovão que vem logo depois do raio.

Então, acho que me entenderam e me atenderam.

*

Acho…

Eu sempre estou achando isso e aquilo e aquil’outro.

A mãe não gosta. Quer dizer, acho que não.

Faz umas caretas, iguais às minhas quando tenho que comer chuchu.

Mãe é mãe, né? A gente tem de respeitar.

Me perdi um pouco.

Do que mesmo eu estava falando mesmo?

Ah, sim. Fiquei um pouquinho contente. Só um pouquinho.

Explico.

Soube que as aulas foram suspensas – e a gente poderá ficar um bocadinho mais de férias aqui, em um pequenino hotel, uma pousada “pé na areia”, como dizem aqui em Arraial d’Ajuda, um lugar paradisíaco no sul da Bahia, nordeste brasileiro.

As aulas de geografia ajudam a gente a se localizar no mundo.

O professor que disse – e eu agora acredito.

Me perdi de novo.

Do que eu estava falando mesmo?

Ah, Arraial d’ Ajuda.

Estou gostando demais da conta, sô!

Fiz alguns amigos novos – entre eles, um amigão: um homem já de cabelos e barbas acinzentados que, dizem, é escritor e veio para cá “atrás de bons personagens para um livro de contos que está escrevendo”.

*

Foi o que ouvi do pessoal da pousada.

Com a garotada, ele é pura farra. Brincalhão que só.

Acho o Enzo (Enzo Leone, esse é o nome dele) muito legal porque fica a contar histórias e mais histórias que nem sei como ele lembra de tudo.

Diz que tem um baú de espanto. Só de contos, crônicas e outros escritos. Dele e de outros que, como ele, vivem da arte e do ofício de enfileirar uma letrinha depois da outra, depois da outra, depois da outra…

Bacana!

*

Engraçado a reação dos adultos quando ele começa a falar.

Ficam com uma expressão estranha, desenxabida. Como se tivessem visto um daqueles monstros dos desenhos japoneses. Olhos arregalados, boca aberta, queixo caído. Uns balançam a cabeça de um lado para o outro, como se não concordassem com nada do que ouvem. Não entendo. Cada qual, cada qual.

Ele disse que eu sou engraçado, uma “figura”. Um pequeno grande personagem.

Perguntei: Por quê?

Ele riu que riu – e respondeu: Porque você é argentino, mora em Belo Horizonte e torce para o Cruzeiro.

Errou, falei.

Torço para o River Plate e (só um pouquinho) para o Flamengo.

Os dois times têm as mesmas cores. Vermelho e preto.

Deu outra risada.

Garantiu que vou virar protagonista de um conto que ainda escreverá.

Protago… o quê?

Como assim?, perguntei.

Não sei se minha mãe vai deixar. Ela é cheia de falar “isso pode” e “isso não pode”.

Ele piscou um dos olhos – e falou: Deixa comigo.

Legal, deixei. Se não for coisa amarga ou com gosto de chuchu, tudo bem. Até aceito.

*

Assim que aumentaram as notícias da tal pandemia, a pousada virou uma bagunça só.

Todos de olho no noticiário da TV do salão que vem logo após a recepção.

Pelo pouco que entendi (sem querer entender), as pessoas começaram morrendo na China, depois na Itália, depois em outros países vizinhos da Itália, nos Estados Unidos (até os jogos de basquete da NBA pararam) e veio vindo… Até chegar ao Brasil, a São Paulo (que eu não conheço, mas dizem que é uma cidade onde mora muita gente e tem uns prédios altos e milhões de carros pelas ruas entupidas por longos congestionamentos e envoltas em fumaça e neblina que, para mim, são quase a mesma coisa).

Agora a ameaça pode vir à nossa direção.

Difícil entender o que se passa na cabeça dos adultos.

Já havia percebido isso. Parecem sempre apressados, atrás de algo que nunca sabem bem o que é, mas acham importantíssimo. Têm data e hora para ser felizes, beber, comer, dançar e, dizem, até namorar.

Agora então estão atarantados.

E eu não sei exatamente o que fazer.

Quando estou assim, sabe o que faço?

Nada.

Só espio para ver o que vai acontecer.

*

O que tiver que ser será.

O Enzo, acho, pensa como eu.

Foi assim que ele falou quando soube da notícia. Tem um compromisso com o editor lá dele.

Continuará a escrever do jeito que sempre fez.

Por isso, continuará por aqui, na pousada.

É o melhor que todos poderiam fazer, disse também.

Teriam que redobrar os cuidados.

E se informar melhor sobre o assunto, a doença e a tal pandemia que foi decretada ainda hoje por uns senhores que cuidam da saúde do mundo. O chefão lá deles falou de um país distante e todos vimos e ouvimos pela TV.

Para o bem de todos e blábláblá.

Acho que me perdi na falação do Enzo e do senhor da TV.

*

Aliás, no dia seguinte, quando soubemos que a situação começaria a se agravar no Brasil – e todos se reuniram, outra vez, no tal salão –, foi do Enzo a ideia de que fechássemos a pousada. Tipo quem está fora não entra, quem está dentro não sai. Para ninguém se contaminar com o novo vírus.

As pessoas ficaram caladas. Uma olhando para a outra, a outra olhando para uma.

Assim estamos a salvo, ele disse.

Faremos juntos a quarentena, o que acham, sugeriu.

*

Não sei exatamente o que é quarentena, mas aceitei de pronto.

Claro que não disse nada. Fiquei na minha. Até porque criança não opina nessas coisas.
Até que o meu padrasto, o Radamés, falou que precisaria voltar para Belo Horizonte, tem negócios por lá. Mas, achava uma boa ideia a de que minha mãe, eu e a minha irmã Clarinha ficássemos por aqui.

A Clarinha é muito pequena e não entende nada. Para ela, tanto faz. Aqui, ali ou acolá.

Daí para frente foi um falatório só.

Sim, não, sim, não, sim, não, são, nim…

Que tumulto!

Como nada entendi, saí de fininho e fui ver o luar refletir-se nas águas do mar.

Aprendi com o Enzo a ver a lua e o mar.

Ele disse que o silêncio faz bem para a alma da gente.

Disse também:

– Ademais, a vida às vezes precisa de uma pausa e um tiquinho de poesia para ganhar cor e sentido. A vida é um espantar-se.

Não entendi bem, mas sei que eu tenho um amigo, o Torquato, lá no colégio e o apelido dele é Tiquinho, mas ele nunca me disse que era poeta.

Continua amanhã…

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