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A Cor da Vida (2 e 3)

Fotos: Arquivo Pessoal

2 – O MUNDO DAS LETRAS

Acordei no dia seguinte com uma barulheira danada.

A pousada sempre amanhecia silenciosa. O que seria aquela movimentação toda? Estava bagunçada mesmo. Uns funcionários espalhavam cavaletes na portaria principal, outros esticavam uma fita amarela em áreas de uso comum como as quadras de esportes, o playground, a piscina e o galpão onde guardam o barco e as motos aquáticas, além dos apetrechos esportivos. Havia duas garotas espalhando cartazes para lavar as mãos sempre, para usar álcool em gel e para evitar aglomeração.

Um dos cartazes anunciava uma reunião às 15 horas. Para considerações finais.

Ainda bem que o Enzo me avisou: Leia, garoto, leia. Leia tudo o que lhe cair nas mãos. De bula de remédio aos ensinamentos da Bíblia. Invada o mundo das letras, e você vai ver que sempre haverá proveito na leitura.

Não sei bem o que é proveito. Mas imagino que seja uma coisa boa porque o Enzo só dá dicas legais.

3 – MUITO PRAZER

Ah, nessa confusão toda de pandemia, até esqueci de me apresentar. Meu nome é Domingos, mas me chamam de Mingo. Minguinho, para minha vó Ignês. Tenho oito anos ou nove? Não, não… Vou fazer dez, agora, em junho. Sou argentino e, muito importante, como já disse, torço pelo River Plate, que é o melhor time do mundo.

Alguém duvida?

Tenho uma história triste. Eu vim para o Brasil, morar em Belo Horizonte, com a minha mãe Denise e com minha irmã Clarinha, que é argentina como eu.

É uma história triste, como eu disse – e minha mãe reclama quando eu repito as coisas. E eu repito muito as coisas.

Mas, é mesmo uma história, para mim, muito triste.

*

Querem saber?

Assim a gente esquece um pouco essa coisa da pandemia porque até eu – que tenho um pacto com os santos e os super-heróis – estou ficando, às vezes, com muito medo. Muito.

Vou contar o que sei, certo?

Não sei bem o que aconteceu, mas tenho uma vaga ideia.

A mãe me falou que não era mais esposa do meu pai, mas eles continuariam bons amigos, mesmo morando em casas diferentes. Até aí eu entendi, não gostei, mas eu entendi. Quer dizer, achei estranho.

Por que precisavam viver em lugares diferentes?

E olhe que achei que continuaríamos morando em Buenos Aires, na casa da minha avó Ignês, aquela que me chama de Minguinho.

*

Em todo caso, em assunto de gente grande, a gente não opina. Obedece e pronto.

Eu devia ter uns quatro, cinco, quase seis anos; sete talvez.

Não, sete não.

Eu nunca sei direito esse assunto de tempo e de números. Faço uma confusão, desculpem aí, viu?
É que o tempo, para as crianças, demora mais a passar.

Já os adultos vivem reclamando que o tempo passa rápido demais.

Eles dizem: o tempo voa.

E olham para o céu como se fossem ver o tempo voar.

Gente grande tem cada coisa!

Agora, não, com a pandemia e com a tristeza que todos trazem no olhar, terão tempo de sobra. Mas poucos olham para o céu, para o mar, para as outras pessoas… Pois vão quietinhos cada um para um canto, com o telefone na mão. Nada dizem, mas de tudo desconfiam.

Tem hora que também me assusto. Não gosto de ver as pessoas tristes. Alarmadas.

Ai, ai, ai…

Fico triste também.

E eu choro fácil, fácil. Por qualquer bobagem.

*
Como eu ia dizendo e não disse, mas direi agora.

Numa viagem de trabalho para o Brasil, a minha mãe reencontrou o Radamés, um surfista argentino, amigo do Sorín, um lateral-esquerdo, argentino e famoso, que veio jogar no Cruzeiro, com quem ela já havia namorado.

Ah, ela namorou o Radamés, não o Sorín, esclarecendo.

Quando era jovem, garota de tudo, minha mãe (que ainda não era minha mãe) foi estudar na Austrália, fazer um tal de intercâmbio.

Foi lá que os dois se conheceram. Ela e o Radamés, gente! Que fique claro. Para não dizerem por aí que, além de repetir, eu invento coisas.

Ele preferiu ficar lá naquela lonjura porque é doido por ondas, pranchas, barcos e mar. Até hoje é assim. Não sei por que agora moramos em Belo Horizonte, longe do mar.

Negócios, negócios, Mingo.

Foi o que me disse certa vez – e eu continuei sem nada entender.

Enfim…

*

Minha mãe voltou para Buenos Aires e lá se casou com o meu pai, André, e depois separou e reencontrou o Radamés (ai, se a mãe ouvisse eu repetindo tudo o que já falei…), não sei se foi pelo Facebook, pelo Instagram ou ainda no tempo de um tal de Orkut. Sei que namoraram de novo e aí, sim, se casaram – e eu e a Clarinha entramos junto com eles na cerimônia que foi bonita numa praia isolada no litoral norte de São Paulo. (Esqueci o nome, nem adianta perguntar).

Então, então… Penso que tem mais gente nessa história.

Mas, apresentarei na medida que for necessário, senão a roda trava, como diz o Enzo e a gente não sai do lugar.

Quer ver outra frase que o Enzo diz: A vida é um longo e sinuoso caminho.

Ih, estou falando igualzinho a ele.

A vida é um espantar-se!

Será que, quando eu crescer, serei contador de história como ele? Será?

Continua amanhã…

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