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A Cor da Vida (4)

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Foto: Arquivo Pessoal

4 – O VESTIDO AZUL

Esta parte da história eu não gostaria de contar, muito menos de ter vivido.

Mas o que fazer?

Igual a tudo na vida, como diz o Enzo.

Quase tudo, né?

Porque essa coisa da pandemia, ninguém tinha experimentado isso não.

A pousada ficou quase vazia.

Aquela reunião foi tumultuada. Quase todos os hóspedes foram embora naquele mesmo dia ou na manhã seguinte. Ficamos eu, minha mãe, a Clarinha, o Enzo, mais duas famílias com crianças, um casal e alguns poucos funcionários da casa que se revezam no trabalho dia sim, dia não.

Agora eles usam máscaras e luvas para nos atender.

A gente também se quiser pode usar. Mas não pode mais abraçar, chegar perto, essas coisas.

Assim tudo bem. Não precisa de máscara.

Eu não me importaria em usar não.

Fico parecendo personagem de história dos gibis antigos que o meu pai colecionava.

Ah, por falar em pai, estou com saudade dele. Muita. Bem grandona.

Será que a tal pandemia chegou à Argentina também?

Não quero nem pensar.

*

Preciso lhes contar o que prometi.

É assim.

Não sei bem o que aconteceu com o pai e com a mãe quando a gente vivia em Buenos Aires.

Eu não vi nada de errado.

Por isso desconfio, eu desconfio, né, que tenha sido por causa do futebol e de certo vestido azul que minha mãe teimava em usar e ficava muito bonita quando vestia.

Como já disse, meu pai é doido pelo River que é vermelho, preto e branco, quer dizer o uniforme é vermelho, preto e branco.

Quem torce para o River tem raiva, mas muita raiva mesmo do Boca Juniors que é azul e amarelo, quer dizer o uniforme é azul e amarelo. Mais ou menos – acho que mais – igual à bronca que há entre Cruzeiro e Atlético, aqui, no Brasil. Um não gosta do outro.

*
Quando minha mãe usava o vestido azul, já disse, ela ficava muito bonita. Atraía os olhares dos fãs de todos os clubes do campeonato argentino. Até do time do Huracán, que tem um balãozinho engraçado como distintivo e símbolo e tem um uniforme branco e grená.

Meu pai ficava com a expressão que o Enzo ficou, dias atrás, quando viu uma bonita mulher paulista chegar à praia e tirar aquele pano colorido que ela fazia de saia e estendê-lo na areia como se fosse uma esteira.

Um senhorzinho falou:

Que formosura! Eta, bicho bom!

O Radamés, que ainda estava aqui, fez que não viu nem ouviu e um rapaz da pousada deu um sorriso que parecia concordar com o comentário. Mas, só o Enzo tinha os olhos brilhando igual aos do meu pai quando via minha mãe com o vestido azul.

*

Meu pai sempre dizia quando minha mãe aparecia de azul, quer dizer com o vestido azul:

Não é muito justo?

Deixa de bobagem, respondia minha mãe.

Eu não sabia com quem concordar.

Por um lado, achava que ela tinha razão. Era mais do que justo poder usar o vestido da cor que bem entendesse porque nem de futebol ela gostava.

Por outro lado, eu também não gostava de ver alguém querido como a minha própria mãe, bonita, maravilhosa, com as cores dos inimigos.

Eu sei que mulher nunca entenderá isso. Mas, nós, fãs do River Plate, sim; e ficamos bem @#%!!

Ops, tristes.

Quase falo um palavrão.

Brasileiro gosta de falar essas besteiras, não? Aprendi um monte deles na escola.

Falar a verdade: acho que estou sentindo falta da escola.

É o que aqui chamam de saudade. Mas, como será a partir de agora com a pandemia?

Por falar em saudade, acho que meu pai tinha razão no caso do vestido, um pouquinho pelo menos.

Não era justo mesmo. Quer dizer era muito justo mesmo.

Ou não? Sei lá.

Continua amanhã…

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