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A Cor da Vida (5 e 6)

Foto: Arquivo Pessoal

5 – MULHER, FUTEBOL E PRAIA

Ah, sobre esses assuntos, futebol e mulher, o Enzo vive a provocar que mulher não entende nada do esporte. E que mulher não quer saber de futebol e só vai a campo para ver as pernas dos jogadores. Não sei se ele, sem saber, estava querendo defender minha mãe e o vestido azul, mas fiquei aqui a pensar: se fosse assim, o Enzo também não poderia ir à praia porque, naquele dia, ele não tirou os olhos das pernas da mulher paulista.

Parece que ele e a paulista conversaram em algum lugar que ninguém viu.

*

Ela foi embora no mesmo dia daquela reunião.

Enzo foi se despedir.

Eu vi: eles quebraram a quarentena, acho. Não guardaram a distância devida para evitar o tal contágio do vírus.
Ficaram abraçadinhos por minutos. Rolou até beijinho no rosto.

Vi o que o Sr. Ambrósio, o italiano que é dono da pousada, perguntou:

– E aí, patrício?

(Acho que é o apelido do Enzo. Esses escritores são cheios de invencionices.)

Enzo falou baixinho também:

– Nada.

– Como nada?

– Ela só tem dúvidas.

– E você, Enzo?

– Eu não tenho certeza alguma…

E os dois riram a valer.

*

Papo estranho, né?

Todo mundo triste, apavorado com a tal doença. E os dois marmanjos rindo e combinando de tomar um vinho à noite.

Quer saber?

Eles que se entendam!

O que penso?

Seria melhor mesmo. Mulher não vai ao campo de futebol e o homem não vem à praia.

6 – BOLA PARA O MAR

Não, não daria certo.

Retiro o que disse. Aí, não haveria futebol de praia.

Quer dizer, está proibido por enquanto. Li em um dos cartazes:

Estão proibidos os esportes coletivos.

Perguntei para minha mãe. Ela disse que jogos coletivos são aqueles em que muita gente pratica ao mesmo tempo. Vôlei, basquete, futebol, handebol, esses aí.

Entendeu?, ela me questionou.

Respondi com outra pergunta: Corrida de cavalos é um jogo coletivo?

Então, ela falou com tom de voz bem carinhoso:

– De certa forma, sim, filho. Aproveita o sol, vai! Brinca aqui na frente do chalé!

Acho que a minha mãe não gostou de o Radamés ficar soltinho em Belo Horizonte.

Está sem paciência comigo.

E com ele também, vi quando conversaram por telefone.

Cuida-te, ela disse.

E repetiu: Cuida-te!

A mãe anda tão preocupada que está repetindo as coisas, como eu.

*
Voltando àquele assunto.

A pousada ficou tão vazia que não dá para jogar nem dois contra dois no futebol.
Tem pouca criança aqui agora. Mesmo assim, a gente tem que brincar sozinho. Não pode ter ajuntamento. Eu li naquele cartaz.

Por isso, acho que já terminaram os esportes coletivos (gostaram?) para todos nessas férias.
Culpa da pandemia.

Mas, eu gosto muito de jogar futebol na praia. Se aquela ideia de “mulher não ir a campo e homem não ir para praia” fosse válida, eu, quando crescesse e virasse adulto, não poderia chutar a bola longe, para o mar como faço quando o adversário vem driblando e está quase fazendo um gol.

É divertido.

Você dá um chute forte na bola, com o peito do pé, e todos os jogadores correm em direção ao mar e, para tirar a bola da água, passam bastante tempo lá “chutiscando” a bola e a água. Todos se molham e se lambuzam de areia.

Melhor deixar como está.

Mulher pode ir ao futebol e o Enzo pode andar pela praia.

Aliás, é o que ele faz todo santo dia, mesmo sem aquela mulher paulista, e só no pedacinho que as fitas amarelas do hotel delimitaram.

Ele diz: Está ruim, mas está bom.

Melhor isso do que nada, eu respondi.

Continua amanhã…

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