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Cenas em um shopping

Mais alguns passos,
os dois se encontrariam…

Um pouco ao acaso. Ou seria
o acaso que fez pouco do amor de ambos
e agora queria lhes propor um teste.
Desses tais, definitivos.

Do tipo, somos ou não somos?

II.

Vá entender essa vida, ele pensou.

Há algum tempo – e nem faz tanto assim,
bastava ouvir o nome dela para tremer na base.
Por vezes, era de outra garota homônima
que os amigos falavam. Mas, nele,
o descontrole era o mesmo.

Ela continuava a ser primeira e única.

Agora, tanto tempo depois,
ele a via ali ao alcance das mãos
e das palavras. No entanto,
continuava estático, sem iniciativa.

III.

Sinceridade?

Se fosse possível voltar a fita e evitar
o encontro, não teria a menor dúvida…

Se pudesse, apertaria o delete – na boa.
E um dos dois desapareceria
dos arredores num piscar de olhos.

Era muito provável que ela ainda não o vira.
Continuava a olhar as vitrines num passo
tão natural, próprio aos que sonham
perder-se dentro de um shopping center.

IV.

Algo lhe dizia que ela gostaria de revê-lo.
Faria festa, perguntaria interessada:

— E a vida?

Não sentiu nenhum entusiasmo em mentir.
Inventar realizações que não realizou,
sonhos que se perderam e falar
da mítica sensação que as coisas
um dia se ajeitem…

Por outro lado, percebeu o bem danado
que lhe fez ficar todo esse tempo
sem qualquer notícia da ‘princesa’.

V.

Ele a conhecia o suficiente para
prever que, logo após o "olá como vai",
desandaria a falar de suas aventuras,
conquistas, participações e progressos.

Mesmo que nada fosse verdade,
nada fosse importante, nada fosse nada,
insistiria nas histórias como se o Universo
sempre conspirasse a seu favor.

Aliás, era o que ele mais detestava

Bastariam 20 segundos e estariam
discutindo o sim e o não da vida.

Era inevitável.

Encerraria o assunto
com o refrão de sempre.

— Você não aprende mesmo, hein.

VI.

Ou faria pior.

Ficaria calado, aparentemente indiferente,
para depois, solitário, remoer as verdades
que não conseguiu dizer.

Houve vezes que foi sintomático.
Explodiram brotoejas por todo o corpo.
E o infeliz passou semanas a se coçar
porque não pôs os bofes pra fora.

Não!

Era melhor dar meia-volta e sumir…

VII.

Congelou o passo ao imaginar como
seria bom rever o rosto bonito.
Encantar-se mesmo que por segundos
com o sorriso inesquecível, espontâneo,
de criança mimada
quando lhe satisfazem os desejos.

E eram tantos, e tão comuns aos dois.

Será que ela ainda conversa com
o gigantesco urso de pelúcia
que eles batizaram de Pimpão?

Será que sorri quando lembra das pratadas
que os dois batiam de strogonnof para,logo
após, atirarem-se na cama
a acusarem-se mutuamente:
— Você comeu demais.
— Eu? E você, então!

E os planos de um apartamento amplo,
sem paredes, onde os dois pudessem estar
o tempo todo juntos, a se olhar e olhar?

E as viagens que nunca fizeram…

VIII.

Ele nunca entendeu como tudo terminou.

Mas, terminou.

É certo que sim.

Ou não?

Haveria uma chance de o Sr. Acaso
reescrever aquela história?
Gostaria de acreditar…

Aliás, no fundo, no fundo,
era o que ambos sonhavam…

Ela lhe disse um dia:

— As coisas não são assim, calma.

Ele respondeu secamente.

— Então, me diz, como são? Amanhã não existe.

E nunca mais se viram…

IX.

Quer dizer: não se viram até aquele
instante num shopping qualquer da vida.

Vá entender a vida, ele pensou.

Deu meia volta e sumiu…

X.

Sem saber como e porquê,
ela levou uma das mãos ao rosto
e se surpreendeu a enxugar
uma inexplicável lágrima.

No mesmo instante, a anos luz dali,
uma estrela de raro brilho riscou
o céu num clarão, e apagou-se.

[Texto publicado no livro “Volteios – Crônicas, lembranças e devaneios”]
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