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Jair Rodrigues e o rappper

Uma ensolarada terça-feira de agosto de 2000.

Eu e o repórter-fotográfico Anísio Assunção estamos diante de um grande portão de madeira numa estreita estrada em Cotia, município da Grande São Paulo.

Pontualmente, nove horas.

Desço do carro e me identifico para o interfone:

— Estou fazendo uma matéria para o Jornal da Tarde e tenho uma entrevista marcada com o Jair Rodrigues.

Do outro lado, a voz avisa que devo esperar.

Minutos depois, o portão se abre e podemos entrar. Um amplo terreno se apresenta diante de nós até chegarmos à residência. Somos recebidos por uma espécie de governanta:

— O seo Jair já já vem atender vocês.

Um rápido olhar pelo interior da casa em que se destaca o estilo rústico a combinar simplicidade e bom gosto. Parece que fizemos alguma travessura. Ao menos, é o que entendo pela expressão do Anísio que anda pra lá e pra cá.

Pergunto:

— Que cara é essa, Anísio?

Ele me responde com outra pergunta.

— Quer apostar que acordamos o homem?

Dou a tréplica da pergunta.

— Não era para estarmos aqui às nove?

Não há tempo para resposta.

Um sonoro e sorridente “bom dia” ressoa pela casa – e comprova o que o Anízio previu.

— Querem um café?

Decididamente Jair pulou da cama para nos atender.

Ele se acomoda num espaço entre a cozinha e a sala, onde há uma grande mesa. E lá mesmo começamos nossa conversa sobre os festivais TV Record e os bastidores do showbizz. O cantor de Disparada foi personagem central daquele importante momento da nossa História. E percebo, agora, um justificável prazer em sua fala ao recordá-los.

Usei parte da entrevista para a reportagem que o Jornal da Tarde publicou em 13 de agosto daquele ano, com o título “Ainda há novos Chicos, Vandrés, Caetanos, Gils e Miltons por aí?” (também postado no ícone Leia Esta Canção). Outro tanto do muito que Jair nos disse naquele dia permaneceu em meus arquivos pessoais. Foi exatamente esse material que transformei em posts e venho abastecendo nosso blog/site desde domingo:

• Jair Rodrigues e Disparada, dia 4
• Jair Rodrigues e os Festivais da Record, dia 5
• Jair Rodrigues e Mílton Nascimento, dia 6

Creio que, antes de encerrar essa modestíssima série, devia ao meu caríssimo leitor esse esclarecimento. Não sei se, de um modo efetivo, os meios de comunicação e mesmo a opinião pública fazem a justiça merecida a Jair Rodrigues.

Sei que ele é referência em termos de MPB ao lado de outros contemporâneos como Benjor, Simonal, Gil, Caetano, Chico e outros raros. Afinal, os anos 60 foram o grande filtro para tudo o que ouvimos ainda hoje.

Mas, pensando bem, não cabe aqui tal discussão.

Cabe, sim, contar mais uma historinha do alegre Cachorrão.

É a seguinte.

Ainda no ano santo de 1965, Jair viajou para o Rio de Janeiro a convite do radialista César de Alencar, um dos grandes nomes do rádio brasileiro. Àquela época, os principais programas de rádios eram transmitidos ao vivo, direto de um auditório, com orquestra e garantia de enorme audiência.

O cantor ficou feliz, muito feliz. Além de levantar um troco sempre bem-vindo, tratava-se de uma chance imperdível para alguém, como ele, em começo de carreira. Estava tão entusiasmado com a oportunidade que, do aeroporto Santos Dumont, foi direto para a emissora.

Na coxia, enquanto esperava a hora de se apresentar, Jair foi abordado por um rapaz que disse ser compositor e lhe passou a letra de um samba. Era Alberto Paes, parceiro de Edson Menezes num samba, à primeira vista, bem esquisito. Havia uma parte falada e só bem depois entrava a melodia.

Jair ouviu o autor cantarolar. Estranhou. Mas, resolveu topar o desafio. Não disse nem sim, nem não.

No outro dia, já em São Paulo, resolveu ‘passar’ a música junto com os músicos da boate Djalma, onde se apresentava. Aproveitaria para ‘testar’ se a ‘coisa’ era boa ou ruim. Chamou o pianista Hermeto Pascoal para acompanhá-lo. Deu as coordenadas e começou o fraseado:

"Deixa que digam
que pensem
que falem…
Deixa isso pra lá
Vem pra cá
O que é que tem."

Hermeto ficou assim embasbacado.

Que ritmo era aquele?

Para socorrê-lo, Jair involuntariamente começou a gesticular para marcar o ritmo. Fez um vaivém com uma das mãos. A cada movimento, alternava a palma da mão para cima e para baixo. Hermeto, ao piano, entendeu a cadência e começou a brincar com as teclas no ritmo. Pronto: estava criada a coreografia que marcou toda a carreira de Jair Rodrigues.

"Eu não estou
fazendo nada.
Você também.
Faz mal bater
um papo assim
gostoso com
alguém…"

Os músicos e Jair se divertiram muito no ensaio. Tanto que à noite, durante o show, o forçaram cantá-la na primeira oportunidade. Foi a mesma festa entre eles. Tanto que, quando Jair deu por si, estava de costa para a platéia a marcar o ritmo com as mãos e de frente para os músicos. Percebeu o deslize e, de imediato, virou-se a tempo de ver que o público todo o imitava e caiu deliciosamente na gandaia quando começou a segunda parte.

"Vai, vai por mim.
Balanço de amor é assim.
Mãozinha com mãozinha pra cá.
Beijinhos com beijinhos pra lá".

Fechou questão ali. A música seria um sucesso.

"Vem balançar
amor é balanceio, meu bem.
Só vai no meu balanço quem tem
carinho para dar".

Pode ser um exagero. Mas, faz todo sentido.
Há quem diga que Jair é o primeiro rapper brasileiro.

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