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Como assim, guri?

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Nas ruas de Natal, alguns muitos anos atrás, o insólito diálogo:

– Não existe futuro, não, tiozão.

– Tiozão, sou eu? Como assim, guri, não existe futuro?

– Foi o namorado da minha mãe que disse. Só existe o hoje, o agora, o presente. Temos de fazer o que tem que ser feito – e é assim.

– Faz algum sentido. Mas, todos precisam pensar no amanhã. Falei apenas que você deveria estar estudando para ter um amanhã melhor – e não aqui, correndo entre os carros.

– O amanhã só existe se passar por hoje. Se hoje a gente ficar olhando a lua e as estrelas – e não fizer o que tem que ser feito -, vai estragar o amanhã e não haverá nem o passado para lembrar o que de bom vivemos. Por hora, preciso trabalhar, levar uns trocos pra casa.

– Hum… O namorado da sua mãe é filósofo, poeta, é o quê? Foi ele que lhe ensinou isso?

– Não sei direito o que o namorado da minha mãe faz, além de namorar a minha mãe. Mora em casa há pouco tempo. Passa o tempo ouvindo umas músicas estranhas, de um tal de Raulzito. Às vezes, gosto. Outras, acho bem esquisitas. Alguém pode nascer há 10 mil anos atrás?

– Raulzito era o Raul Seixas, um roqueiro que se dizia “maluco beleza”.  Uma figuraça. Os caras da minha geração e outros tantos mais novos do que eu ainda curtem muito as canções dele. Mas, me diga, se não foi o namorado da sua mãe quem fez esse comentário, quem foi?

– Eu mesmo.

– Você?

– Claro, tio. Só porque vendo bala no semáforo, sou ruim das ideias, não posso pensar umas coisas diferentes?

– Pode, claro que pode. Aliás, você me parece bem esperto pra sua idade.

– Acho que sou mesmo. Vou lhe contar: quando meu pai ainda morava em casa, ele me levou num jogo de futebol naquela tarde de domingo. Não sei onde o coroa arranjou dinheiro pra ver a seleção, mas lá fomos nós – eu e ele – pro Estádio das Dunas. Foi uma festa. Nem me lembro mais quanto foi o jogo. Só lembro que fiquei numa alegria derramada só de ver aquele povo todo feliz, gritando, cantando, se abraçando. Parecia tudo gente boa.

– Ir ao estádio de futebol é bem legal mesmo.

– Põe legal nisso. Passei uns bons dias só pensando naqueles momentos. Ainda hoje, vez ou outra, me pego feliz só por lembrar que fui muito feliz naquele dia. O pai era gente boa também, bebia um tantinho além da conta, mas era bom coração. Disse que foi embora pra ganhar o mundo. Eu entendi a dele; a mãe e os manos, não.

– Deixa ver se entendi? Deste fato, desta lembrança, você chegou à conclusão de que o presente é hoje, e é o que vale. O passado só existe na nossa lembrança e o futuro…

– … o futuro a Deus pertence, tio. Não foi o namorado da minha mãe que falou isso, não. Foi o frei Sebastião mesmo. Sou muito religioso, sabia?  O frei cuida da escola da paróquia. Vou sempre que posso. Ele disse que logo logo vou poder comungar… Vai uma balinha de goma, aí, tiozão? Adoça a vida!

A cidade de Natal tem o mais belo luar que, uma noite, pude ver. Não esqueço o cenário que vislumbrei da janela do quarto do hotel onde me hospedei.

Noite clara. A lua cheia plenamente espelhada sobre as águas do mar.

A inspirar filósofos, poetas e garotos que, como eu, de repente envelheceram.

Nunca esqueci.

Não sei se estamos na lua cheia, mas gostaria muito de hoje estar por lá.

Poderia vê-la inteira, rebrilhante, estirada nua/lua. Inesquecível.

Adoça a vida!

(e a gente anda precisando! Tá relampiando, nesse 2019)

* ilustração: site Wln
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