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Jornalismo e literatura – eis a crônica

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Foto: Leila Kiyomura/Paris

Renan, o jovem leitor, me faz duas perguntas a partir do texto de ontem.

Alguém se lembra?

Escrever é envolver-se…

Ele cursa jornalismo – é curioso, portanto.

Antes das respostas – se é que as tenho a contento do leitor, explico:

Ele elogiou a crônica/post.

Diz que a narrativa também o envolveu.

Mas, ao final, se sentiu confuso com as próprias ideias.

Enfim, não sabe se entendeu direito a mensagem que pretendi passar.

E deixou no ar uma terceira provocação:

“Nem sempre podemos estar no comando. É difícil, no início da carreira, ser dono e senhor do próprio destino.”

Mil desculpas, Renan.

Faz quase dois anos que deixei a sala de aula.

Acho que, como dizem os trompetistas, perdi a embocadura.

Ademais, reconheço que o eu/cronista, por vezes, se enrosca em digressões, exemplos vagos, lembranças e, concordo, poetiza demais.

Veja, futuro colega jornalista, esta subjetividade é na verdade uma característica da crônica como gênero em si. Um desvão na narrativa que pretende humanizar o texto, a mensagem que se quer passar.

É, na verdade, o grande trunfo. Que diferencia a crônica do noticiário do dia, das manchetes dilacerantes, da frieza dos fatos. Para estes, temos os repórteres. Para a análise fria e contundente, os colunistas, os editorialistas e articulistas. Para o que há de sensível no correr dos dias, o olhar do cronista.

Penso que assim respondo a uma de suas questões:

“Aprendi logo nas primeiras aulas que jornalismo é clareza, objetividade e coesão no texto. a crônica, como gênero, pertence ao jornalismo ou à literatura?”

Em resumo, Renan, a crônica, por história e tradição, é, sim, um gênero jornalístico, mas flerta com a literatura – e vice-versa.

Permita-me outra digressão:

Aliás, esta é uma questão que também comecei a discutir ainda quando frequentava as aulas do curso de jornalismo na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.

Faz tempo, hein!

A outra questão requer um, digamos, embasamento filosófico:

“É correto dizer que todo autor está sempre em busca de um personagem, seja no jornalismo, seja na literatura?”

Uia.

Talvez o Woody Allen possa lhe responder com mais precisão.

Mas, vou me arriscar por aqui…

No jornalismo, creio, sempre corremos atrás de uma boa história.

Ao menos no meu tempo de repórter, era assim.

Já na literatura, no cinema, teatro, na arte em si, essa postura faça mais sentido.

Aliás, tempos atrás escrevi algo sobre o tema.

Lancei mão, para tanto de minha experiência, como repórter e (supostamente) cronista.

Basicamente, escrevi o seguinte:

Não são poucos os autores de quem ouvi e me garantiram:

– Há um bom naco autobiográfico em cada uma das linhas que escrevo.

Se não é exata e precisamente sobre aquilo que viveram, muito do que contam nasce de observações feitas ao redor. Ou de alguma causa que lhes impressiona sobremaneira. Leituras essas que, invariavelmente, passam pelo filtro da própria interpretação.

É da natureza humana olhar, ver, interpretar, vivenciar e, sobretudo, eis  a proposta dos tempos atuais, ser também um narrador das coisas do cotidiano.

 A quem interessar, aqui vai a íntegra da crônica:

O Autor em Busca da Personagem

Quanto à terceira provocação, Renan, fique tranquilo.

Sempre que somos sinceros com nossos sentimentos, estamos no comando dos nossos passos.

Caetano tem uma linda canção que diz:

“Coragem grande é poder dizer sim.”

Pra vida e pros amores…

 

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1 Response
  • VERONICA PATRICIA ARAVENA CORTES
    8, fevereiro, 2020

    Lembro que, em muitas passagens, eu pensava “só pode ser ficção”, contudo tragicamente não era…

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