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Memórias daquele boteco…

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Não era sempre.

De vez em quando, o Raivão aparecia naquele boteco onde batíamos o ponto, dia sim e outro também; botequinho enjoado que não mais existe na esquina da rua Bom Pastor com a Greenfeld, no bairro operário do Ipiranga.

Aliás, desapareceram os dois.

Raivão, pois nunca mais tive notícia do homem.

(Nem ele, de mim, creio)

E o Sujinho que foi sumariamente demolido, sem consulta pública, e, em seu lugar, construiu-se a tal Estação Sacomã do Metrô que serve a muita gente, mas, sinceramente, não acomoda o tantão da minha saudade.

Ali, nossa fauna de faunos se fez feliz, e bem sabíamos.

Dizia-se do Raivão, de nome batismal Edmundo, Senhor Edmundo: era um comerciante das redondezas do Ponto Fábrica – outra denominação do lugar por ser, lá nos mais antigamentes, a parada final do bonde homônimo que transportava os trabalhadores das fábricas que, ali se instalaram no começo do século 20, até a Praça João Mendes num ruidoso e constante ir e vir.

Melhor parar com essas digressões, senão não termino o post hoje.

Voltemos aos Sr. Edmundo; no risque e rabisque dos tampos daquele áspero balcão, o nosso generoso Raivão.

Quando ele chegava por ali é porque o dia não lhe fora nada favorável nos negócios e, vá lá, nas coisas do cotidiano.

Raivão fazia do bar e da nossa nada recomendável companhia uma espécie de refúgio para os atropelos do dia ruim.

Como descobrimos?

Ora, ora, ora vejam só…

Simples.

O homem não parava de reclamar. De tudo e de todos; de nosotros, inclusive.

Santa Ingratidão!

Ficava ainda mais danado da vida quando alguém se punha a reclamar mais do que ele.

Como nenhum dos desvalidos que ali habitava prestava nadica de nada (eu, incluso), imagine o teor das conversas. Novela mexicana era moeda de troco. Filme do Tarantino, brincadeira de criança no prézinho.

Exagerávamos.

Um querendo se mostrar mais azarado que o outro.

Inconformado, o Sr. Edmundo era tomado por ira inclemente (daí o codinome que lhe demos às escondidas, Raivão) e se punha a duelar simultaneamente com os diversos interlocutores. Tomava para si todas as dores do mundo. Dizia não acreditar mais nas pessoas, no país, no mundo, no cosmo:

– Pois, vejam o que me aconteceu…

E tome relatos de prejuízos, doença na família, filhos que só lhe davam desgosto, a mulher que gastava demais, os negócios à bancarrota  etc etc e tal.

Do lado de cá, revezávamos na criação de infortúnios e lamentações para contrapor às tristezas do (quase) amigo e alimentar o desafio nos moldes daqueles cantadores de cordel.

Só que eram vários contra um, o Raivão.

Em determinado momento, o homem, exaurido, sucumbia às nossas supostas desgraças.

Não vou dizer que se dava por vencido.

Jurava ser o mais azarado – e ponto e basta.

Arrisco que abandonava a arena por notar que não era o único no mundo a ter problemas.

(Conheço um tanto de gente assim.)

Arrisco mais: o bate-boca funcionava como uma terapia (mas, tinha um preço). Dava-lhe  certo alívio dos enfrentamentos diários e, quando se cansava de nossas mentiras e provocações, alegava um compromisso inadiável e saía rapidinho.

Antes, porém, passava no caixa e confessava sua indignação ao dono do boteco, o Arlindo:

– Não sei o quê esse pessoal tanto se alegra quando eu chego. São bem mais fodidos do que eu, com o perdão da má palavra. Só reclamam e reclamam; mas, sei lá, não tiram o sorriso do rosto.

“Pois se livre desses chatos”, aconselhava o Portuga, esperto. “Pague outra rodada de cerveja pra eles, e vá se embora. São assim mesmo, beberrões.”

Bingo!

Era só o que queríamos.

Ô raça!

 

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