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No campo de centeio…

Aí, ela começou a chorar mesmo, e só me lembro que comecei a beijá-la toda – em qualquer lugar – olhos, nariz, testa, sobrancelhas e tudo, as orelhas – o rosto todo menos a boca. De qualquer maneira, nunca mais estivemos tão perto um do outro.

Pouco depois ela se levantou, entrou e voltou com um suéter vermelho e branco que eu achava o máximo.

Aí fomos à porcaria dum cinema.

No caminho, perguntei a ela se o tal Cudahy – era assim que se chamava o cara que era um porre – tinha alguma vez se metido a engraçadinho com ela.

Jane era muito garota, mas tinha um corpo infernal, e eu esperava qualquer coisa de um filho da mãe como aquele cara.

Mas, ela disse que não, e nunca pude descobrir qual era o problema.

Tem garota que é assim.

A gente não consegue nunca saber qual é o problema delas.

(…)

Vivíamos o tempo todo de mãos dadas.

Não parece grande coisa, reconheço.

Mas, era fabuloso ficar de mãos dadas com ela.

Quando estão de mãos dadas com a gente, as garotas deixam a mão ‘morrer’ dentro da mão da gente. Ou então, acham que têm de ficar mexendo os dedos o tempo todo, como se estivessem com medo de estar chateando a gente ou coisa que o valha.

Com a Jane era diferente.

Entrávamos numa droga dum cinema e imediatamente ficávamos de mãos dadas até o filme acabar. E isso sem ficar mudando de posição, sem fazer nenhuma complicação.

Com a Jane a gente se preocupava se a mão estava suada ou não.

Eu só sabia uma coisa, estava feliz.

** Trecho de “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J. D.Salinger (foto/reprodução), obra prima que vendeu mais de 60 milhões de exemplares. Salinger morreu ontem, aos 91 anos, em sua casa em New Hampshire, nos Estados Unidos.

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