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No tempo dos meus avós

Meu avô – o pai da minha mãe – era chapeleiro num tempo em que os homens tinham mais cabelo – a poluição era menor – e usavam chapéu…

Meu outro avô – o pai do meu pai – era alfaiate nesse mesmo tempo em que os homens usavam chapéu e vestiam-se com ternos feitos sob medida. Nos trinques.

A elegância era uma meta. A moda não era assim volátil – e era imprescindível usar um chapéu de qualidade e trajar-se no rigor bons tecidos, sem exageros.

Era um precioso toque de elegância fechar o paletó quando o homem se punha de pé e, ao sentar-se, desabotoá-lo com descrição caprichosamente. Outro momento de delicadeza era a reverência que se fazia ao cumprimentar uma dama ou ao passar diante de um santuário. O chapéu era alçado levemente por uma das mãos e ligeiramente curvava-se a cabeça em sinal de respeito.

Os dois moravam no Cambuci. Não me consta que o vô Rodolfo (que não conheci, morreu meses antes de eu nascer) tivesse a própria alfaiataria. Mas, era dos bons. Já o vô Carlito respondia, como mestre, pela chapelaria da Ramenzzoni, importante indústria de confecção masculina paulistana.

A propósito de que mesmo, lembrei dos meus avôs?

Ah, sim!

Almoçava hoje com amigos – eles, entre os 30 e tantos e 40 e poucos; e eu, pra lá de 50. Comentavam uma reportagem da Ilustrada que ainda não li. Em resumo, entendi o seguinte: há um autor americano que detectou que a internet põe o planeta nas mãos dos jovens e eles preferem limitar-se aos chats de bate-papo, aos orkuts e msns da vida. Ou seja, não estão nem aí para o mundo.

Um absurdo, disseram. E desandaram a desandar a rapaziada…

Fiquei em silêncio, pensando em todo aquele conversê.

Não que não lhes dê razão em alguns muitos pontos. Mas, me parece que não podemos ser assim tão implacáveis com quem está se achegando. A cada instante, entramos em um novo ciclo; e conseqüentemente deixamos o antigo para trás. Mudanças, por vezes, radicais. Ocorreu-me ali a idéia de que agora, sim, se dá o autêntico conflito entre gerações. Que, saliento, não é mais aquela coisa de pai versus filho; mas, sim, de gente com idade mais correlata, parelha. Uma diferença que não vai além de cinco anos. Valores pessoais, manifestações artísticas, gostos, moda – esses conceitos variam consideravelmente de um para outro. Por ser algo tão recente, tão próximo de nós, ainda não podemos avaliar, com precisão, o certo e o errado das coisas todas. Embora desde sempre, o certo e o errado, o bem e o mal, a luz e a sombra fossem situações previamente identificáveis.

Hoje não é bem assim…

Quando invocaram minha opinião, fui sincero, estava justamente pensando porque os meus avós usavam chapéus e como eles se aguentavam, com gravata e paletó, em um país tropical e quente como o nosso.

È os tempos mudam… E hoje mudam mais velozmente.

Mas, não foi isso que lhes falei. Disse um provérbio calabrês que meu pai jurava ter ouvido do meu avô, o alfaiate:

— O que eu não entendo, eu estranho. E o que eu estranho; na maioria das vezes, não vale a pena tentar explicar porque passa pelas estranhezas do futuro.

Bem, se estivesse de chapéu como no tempo do vô Carlito, faria a reverência respeitosa levantando a aba do meu Ramenzzoni e sairia na maior elegância, pisando macio e a fechar o imaginário paletó dois botões…

Cá para nós, aquela conversa e este post/crônica só serviram mesmo para lembrar os meus avós.

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