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O que o tempo leva… (36)

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UMA NOVELA BLOGUEIRA –  (Foto: Reprodução/Atelier VianaCabral)

 

ESTILHAÇOS de lembranças e um naco de saudade. Rostos e formas de amar, as Dulcineias que povoam os sonhos e os pesadelos…

 

As minhas Dulcineias foram muitas, meu caro Felisberto.

Tiveram diferentes rostos, nomes e formas de amar.

Aliás, serei franco, não sei se amar é a palavra mais adequada, precisa.

Todas ainda povoam meus sonhos e pesadelos.

Habitam, cada qual à própria maneira, o sótão da memória de um tempo vivido, ardentemente vivido mais do que planejado, racionalizado. Tempo, de inconsequências prazerosas, que me escapou entre os vãos dos dedos assim como todas elas, de um jeito ou de outro, também me escaparam.

Num dia encantado, chegaram.

Em outro, inexoravelmente turvo, se foram.

Deixaram estilhaços de lembranças e um naco de saudade.

Algumas, confesso, também deixaram uma grande sensação de alívio (barulhentas que só!).

Muitas, reconheço, fazem um bem danado recordar.

Por onde andam?

Ensaiava uma montagem do clássico Ricardo III para encenar no Teatro Municipal de São Paulo. Achei que a barba ainda que rala, de alguns dias, daria mais veracidade ao personagem. Numa preguiçosa manhã, flagrei Dulcineia, a Graciosa, com jeito de quem queria me provocar. Ria um riso que, ainda hoje, só de lembrar me enternece. No rosto, a provocação e o dengo:

– Que cavaleiro do Rei que nada! Tá com cara de cachorro vadio.

E completou toda amorosa:

– Sabe esses vira-latas que, em dia de chuva, arranham a porta, latem e uivam, querendo abrigo e companhia?

À noite voltou para ver o espetáculo, estava lindíssima. Depois veio me ver no camarim. Deixei a porta aberta. Não sei se era a deixa, mas durou anos, intensos anos, até que a porta do Destino trancasse de vez – e ela se foi.

Continuava linda.

Estonteantemente linda.

Quando interpretei Teófilo Ramos, um coronel decadente numa novela de boa audiência na TV, conheci uma jovem e talentosa atriz, a Dulcineia de Cabelos Crespos.

Sem explicações, logo depois de gravarmos as primeiras cenas, apareceu no meu apartamento no Bixiga sem ser convidada. Ficávamos até as tantas – e ela pedia um táxi pra ir embora, sem cerimônia.

– Eu sou assim. Independente. Tudo e nada.

Uma noite, perdemos o controle.

Foi mágico, intenso. O dia clareou, ela disse qualquer coisa – e nunca mais a vi.

Havia gravado a última cena no dia anterior.

Deixou um gosto de quero mais e dois ou três fios de cabelos encaracolados que recolhi do lençol e não guardei.

Com Dulcineia, a Paixão, foi memorável. Dez dias trepidantes que incluiu réveillon em alto mar.

Em meio a fogos de artifício, taças de champanhe, meu cartão de crédito a derreter, certo delírio provocado pela bebida e o jogar do navio, tudo se prometeu e nada se cumpriu.

Vai saber?

Na volta, precisei viajar para participar de alguns festivais de teatro na Europa. Coisa de grupos experimentais, puro desbunde. No regresso, dois, três meses depois, soube que ela iria casar com um granfo.

Fingi que entendi como sempre faço quando nada entendo.

Meses e meses depois, eu a encontro por acaso numa pré-estreia. Me apresenta formalmente ao marido – e, depois longe dele, me chama de “Marcolino, o vacilão” e questiona:

Por que não apostei todas as fichas naquela desenfreada paixão?

Disse-me que perdemos, ambos.

Será?

Ela me pareceu bem feliz.

E eu não dou sorte em jogos de azar.

A Dulcineia Corista, lasciva e incontrolável, queria um filho. Que fosse pedir ao marido! Cada uma?

A Dulcineia Fã dizia gostar de me ver no palco. Que conversa! Fora dele: sexo, sexo, sexo!

A Dulcineia Poeta me escrevia todos os dias. Poemas, declarações, recados de quem não quer se sentir só. Não segurei a onda. Nunca fui de guardar bilhetes.

Houve também aquela estudante do EAD. Mas, eu andava empolgado com a possibilidade de trabalhar com o Gerald Thomas, nem me dei conta das suas querências. Era atrevida, mas morava longe demais para ser diária. O desencontro foi inevitável. Um dia nos perdemos de vez – e nem sentimos a ausência um do outro.

– Houve outras e mais outras, mas já falei demais, não?

– Gosto de ouvir histórias, doutor. Mas, se me permite uma pergunta, o senhor é ator é? E nunca se casou?

– Casar, casar, de papel passado, não. Pertenço a uma geração que quebrou esses tabus todos, essa convenções sociais. Meio hippie, outro tanto rebelde sem causa. Vanguarda das vanguardas, sabe como é? Casar para muitos de nós significava estar juntos, conviver, compartilhar e amar-se loucamente.

– Olhe que pensei que fosse só eu o complicado nesse enrosco de homem e mulher, viu? Só mais uma perguntinha, doutor-ator: por que todas elas tinham sempre o mesmo nome? É tara é? Dulce o quê mesmo?

 

 

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